sábado, 20 de agosto de 2016

Veneza em perigo

Um dos anacronismos mais absurdos da indústria turística atual é a de levar enormes paquetes a Veneza, criando imagens quase obscenas de conveses mais elevados do que a altura do Campanile. Para além da agressão estética, que esse contraste suscita, a turbulência das águas por tais navios cria esforços tão violentos na estrutura em que assentam os edifícios da cidade, que esta é dada pelos especialistas como estando em sérios perigos de se manter como está.
Daí a movimentação de grupos de esquerda e de defesa da cidade, que optaram por bloqueios à deslocação de passageiros entre a escada de portaló e a cidade ou vice-versa para grande escândalo dos poucos que aproveitam com esses breves visitantes.
Confesso que a primeira das vezes, que me desloquei à cidade dos Doges foi a bordo do paquete «Funchal», mas este, na sua escala reduzida - o último presidente do Estado Novo até o considerava como uma espécie de seu iate particular! - não criava esse efeito paradoxal entre uma modernidade invasiva e a arquitetura da cidade. Até porque atracámos numa zona mais periférica do Dorsoduro, relativamente distante da Praça de São Marcos, à qual acedíamos depois de passarmos por bairros com estaleiros de construção e de reparação de gôndolas e pelo emblemático edifício da Alfândega.
Na mais recente visita à cidade, já em contexto de férias, ainda não se notava esse fluxo incessante de paquetes, mas a cidade parecia abarrotar com um número excessivo de forasteiros. A solução para usufruirmos verdadeiramente o clima veneziano implicava, ora a deslocação para zonas mais afastadas do circuito entre a Catedral e o Rialto, ora à noite, quando os cafés em frente ao Palácio dos Doges ganhavam a magia da música excelentemente interpretada por instrumentistas vindos dos países do Leste Europeu e o siroco parecia limpar toda a poluição ali acumulada durante o dia.
As autoridades da cidade estão, hoje, confrontadas com problemas muito sérios, porque ou proíbem o acesso dos grandes paquetes aos seus cais para pouparem os efeitos da ondulação nas estacas de madeira sobre as quais assentam todos os edifícios - cada vez mais instáveis na sua progressiva degradação -, ou verão o afluxo contínuo de receitas turísticas declinarem até à dimensão do desastre económico e social. É que a população residente na cidade vai-se reduzindo à medida que aumenta o custo de vida e o dos alugueres ou venda dos apartamentos, criando-se a natureza de mero parque de diversões para quem diariamente ali acorre para o visitar ou nele trabalhar.
Os problemas que se colocam a uma cidade como Lisboa, que está a combater a desertificação do seu centro histórico, faz-se sentir de forma bastante mais gravosa na cidade do Adriático. E as decisões dos políticos tardam antes de ver a cidade transformar-se numa decrépita Disneylândia abandonada sem verbas bastantes para a salvarem da acelerada ruína.
Veneza é, assim, uma das cidades europeias em perigo mais iminente. Sem que se lhe conheça líder visionário capaz de a fazer sair da aparente queda para um inclinadíssimo abismo.



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