domingo, 14 de agosto de 2016

Nos cinquenta anos da Revolução Cultural

Há cinquenta anos a Revolução Cultural revelava-se imparável numa China que, face às desilusões suscitadas pelo estalinismo na URSS, parecia representar a verdadeira resposta ideológica para a lentidão com que a social-democracia propunha a criação de uma sociedade mais justa e igualitária. Ademais, surgiram por essa altura alguns livros, recebidos com entusiasmo pela juventude europeia, em que se demonstrava o carácter épico da Longa Marcha, que propiciara a vitória sobre os exércitos de Chang kai-chek. A admiração por Mao era então imensa, sobretudo entre os estudantes universitários.
A maioria dos que aqui me leem conhecem a minha adesão ao maoísmo, quando a Revolução de Abril se esfumou e deu origem ao tipo de regime, que temos conhecido nestes quarenta e poucos anos: aparentemente democrático quanto às liberdades de expressão e pensamento, mas mais desigual economicamente do que acontecia na época do fascismo.
Para quem andou a desejar o 25 de abril logo no dealbar da década de setenta e o apanhou aos 17 anos em 1974, a normalização eanista pós-25 de novembro justificou que se concluísse pela necessidade de prosseguir com o esforço revolucionário. Até porque, em 1973, Allende já morrera tragicamente ao demonstrar a impossibilidade de se implementar um regime verdadeiramente socialista pela via eleitoral.
É claro que os anos oitenta vieram esclarecer-nos quanto aos perigos de se levar por diante um tipo de Revolução como a criada em torno dos Guardas Vermelhos: no seu alucinado exagero Pol Pot seria a expressão do que poderia resultar de uma aplicação tão fundamentalista dos princípios contidos no Livro Vermelho quanto o Daesh o faz com o Alcorão.
De qualquer modo não deixa de ser perturbador que o fim do maoísmo na própria China a tenha transformado numa grande potência capitalista que do comunismo só guarda a aparência formal. E a esquerda socialista - aquela que se dissocia das ilusões de ainda ser possível a repetição dos modelos que sustentaram durante décadas a superioridade das sociais-democracias escandinavas, tendo em conta esta fase neoliberal do capitalismo - ainda terá de resolver a dificuldade de impor uma agenda política, que conduza a essa maior justiça e igualdade social e consiga superar todos os boicotes e sabotagens lançadas por quem pretende manter a tendência para um maior enriquecimento dos ricos e um empobrecimento irreversível do resto da população. É que, se virmos o quanto se passa com o atual governo de António Costa, não falta quem, interna ou externamente, tudo faça por o derrubar. A transformação social na presente fase de agudização da luta de classes continuará a não ser um convite para jantar!

1 comentário:

  1. Admito a dificuldade da restauração da social-democracia num cenário em que o Capitalismo se internacionalizou, enquanto o exercício do poder político continua consignado ao estado nacional, UE à parte, sendo que o seu exemplo nem sequer é egrégio. Mas qual é a alternativa? A coletivização da economia, que nas versões já tentadas é melhor descrita como Monopólio de Estado? Por amor de Deus... Sendo eu razoavelmente euro-cético, deito as mãos à cabeça com as alternativas implícitas no discurso soberanista. Têm todas alguma coisa que ver com um estatismo que, já sabemos, é rapidamente capturado pelas cúpulas dos Partidos de Poder, por um poder sindical anacrónico, e por aí a fora...

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