sábado, 13 de agosto de 2016

No aniversário de um velho senhor

Bastaria a sua capacidade para bater o pé ao poderoso vizinho mantendo Cuba fora do tal quintal, que o tio Sam pretendia constituir com todos os seus vizinhos para Fidel Castro merecer grande admiração.
Podemos ter dúvidas mais do que fundamentadas sobre o tipo de “socialismo”, que criou, mas ainda está por demonstrar que o seu lado mais negativo não deriva precisamente dos constrangimentos suscitados pelo bloqueio e pelas sabotagens ditadas de Washington. Por isso mesmo, no dia em que faz 90 anos, é mais do que justificada a referência à efeméride.
No artigo, que o «Libération» ontem publicou, e onde o vemos a cuidar do seu pomar, François Xavier-Gomez refere-lhe a crença pessoal de ter a sua longevidade associada à moringa, um arbusto oriundo da Ásia adaptável a todas as zonas tropicais e cujas folhas possuem argumentos nutricionais surpreendentes: mais proteínas do que o leite e mais vitaminas que a laranja.
Fidel passou o cargo de líder da Revolução ao irmão Raul há dez anos e, desde então, dentro das limitações suscitadas pelos seus problemas de saúde, é à jardinagem, que dedica grande parte do seu tempo, correspondendo a uma paixão antiga. As tecnologias agrícolas sempre o apaixonaram e até viu  nelas a possibilidade de garantir a plena autonomia alimentar superando a lógica da monocultura da cana do açúcar herdada dos tempos coloniais. Um projeto que nunca conseguiu levar por diante, porque as várias tentativas ensaiadas nesse sentido acabaram por revelar-se desastrosas, com resultados muito aquém dos pretendidos.
Um dos exemplos mais conhecidos foi o da tentativa de plantar café em terras absolutamente desaconselhadas para esse tipo de cultura. René Dumont, que inspirara essa agricultura de autossubsistência, rejeitaria a aplicação prática das suas teorias considerando que “Fidel julga saber tudo (…) e é o seu orgulho que um dia o irá derrotar”.
Os camponeses foram, porém e sempre, o esteio de apoiantes da Revolução: quando chegou a Havana em 8 de janeiro de 1959, Fidel trazia consigo o despeito de nunca ter conseguido a adesão da população citadina, que até lhe boicotara ostensivamente a greve geral de 9 de abril de 1958.  Por isso ele mesmo se consideraria um guajiro, mesmo que oriundo de uma família de latifundiários.
Um dos problemas vividos pela Revolução cubana sempre terá sido essa incapacidade de suscitar empatia nesse substrato social, que viria a constituir uma boa parte dos balseiros, anos a fio empenhados em atravessarem o estreito braço de mar, que separava a ilha do continente norte-americano.
Meio século passado sobre essa tentativa falhada de criar uma Revolução agrícola no país, Fidel continua igual a si mesmo, arrogante nesse orgulho e cristalizado na sua visão do mundo: as suas «Reflexões», amiúde publicadas na imprensa do regime, proclamam os princípios do socialismo como imutáveis e irrevogáveis e a Revolução eterna.
Ele não se apercebe da contradição entre a negação da mudança com o que mais fundamenta a doutrina marxista, que é a sua contínua reaferição à realidade de acordo com os princípios do materialismo dialético. Nesse sentido, e pela influência que detém sobre a cúpula do Partido Comunista de Cuba , ele ainda é um dos mais poderosos travões a uma transformação capaz de preservar o essencial do que de melhor a Revolução comportou - nomeadamente na Educação e na Saúde - sem perder a oportunidade de potenciar as condições do seu crescimento económico.
E, na realidade, o tempo corre em seu desfavor, tanto mais que o seu aliado venezuelano tenderá a deixar de sê-lo no dia em que a direita apoiada pelos seus aliados norte-americanos declarar o óbito da dececionante Revolução bolivariana.
Os cortes anunciados pelo governo de Raul Castro são o prenúncio de dificuldades maiores, que o crescimento significativo da indústria turística e das remessas dos emigrantes não bastarão para compensar. As desigualdades crescentes entre os empreendedores, que conseguem níveis de vida razoáveis com os seus pequenos negócios e os que vivem dependentes das remunerações e pensões propiciadas pelo Estado, tendem a agudizar-se e a criarem as condições para imprevisíveis explosões sociais.
Mas o sempiterno Fidel alegará sempre que a previsão para o fim da Revolução já dura há quase seis décadas e ela tem encontrado sempre forma de sobreviver.

2 comentários:

  1. Eu diria que o principal problema vivido por todas as revoluções de cariz marxista é a falta de liberdade política e a estagnação económica e cultural que aparecem associadas ao 'centralismo democrático' (uma contradição nos termos) e à estatização da economia que do capitalismo só preserva o que este tem de pior, o monopólio. Nem o próprio socialismo democrático conseguiu alguma vez florescer, se o considerarmos um modelo em que o Estado é dono da maior parte das empresas de cariz estratégico. As imagens dos venezuelanos a atravessarem a fronteira para a Colúmbia para se abastecerem de alimentos dizem tudo o que é preciso sobre a 'dececionante' revolução bolivariana. É que o resultado vai ser ou o despotismo de um herdeiro pífio do Coronel Golpista Chavéz, ou o regresso da Direita ao Poder por muitos e bons anos, como no Brasil, com os pobres a pagar a austeridade que necessariamente se seguirá a tal regresso. A Esquerda tem que se ater a soluções económicas de cariz social-democrata, que restaurem a dignidade dos mais pobres, e deixar-se de ilusões relativamente à bondade de voluntarismos coletivistas. E, já agora, começar a ensaiar um regresso a modelos cooperativos não marxistas, porque a alternativa ao Capitalismo terá que ser algo a construir durante muitos anos...

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  2. "Ele não se apercebe da contradição entre a negação da mudança com o que mais fundamenta a doutrina marxista, que é a sua contínua reaferição à realidade de acordo com os princípios do materialismo dialético."

    Meu caro, o que faltava era mesmo que Fidel, há décadas a estudar o marxismo ou marxismos e sobretudo a aplicá-lo, não conhecesse ou não se apercebesse da necessidade da contínua reaferição à realidade.
    Claro, se há coisa que ele conhece de gingeira é essa da "reaferição contínua", contudo, jamais a aplicará porque sabe de experiência feita que seria, precisamente por essa via, que seria desalojado rapidamente do poder e jamais seria o "El Comandante" décadas após décadas.
    É que a necessidade, mais forte, poderosa e imperiosa de manter o poder obriga que a "reaferição contínua à realidade" se conforme com a interpretação de realidade imposta pelo poder. E por isso a "reaferição contínua" faz-se segundo a dialética do poder e não segundo a dialética dos estudos marxistas.
    Pois, meu caro, o marxismo como todas as concepções sociais sistémicas eram infalíveis se não fossem aplicadas por humanos sistemicamente falíveis.


    se é

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