terça-feira, 23 de agosto de 2016

A “naturalidade” de se ser de direita

No artigo que hoje assina no «Publico» («O jornalismo tem razões para se arrepender todos os dias») José Vítor Malheiros arrisca seriamente a sua continuidade como colaborador no jornal da Sonae ao verberar a forma como ali foi tratada a recente  entrevista a Catarina Martins, em que lhe puseram na boca palavras em clara oposição com tudo quanto ela ali diz.
JVM começa por pegar num exemplo bastante elucidativo: na RTP, onde colaboradores seus têm lugar garantido nos vários painéis de comentadores, nenhum pivot os anuncia como pertencentes a uma publicação da direita radical, «O Observador», que foi criado por um conjunto de gestores ultrarreacionários para favorecer a sua agenda de privatizar tudo quanto no Estado ainda dá lucro, desregulamentar todos os mecanismos impeditivos de fazerem bons negócios e eliminar da lei tudo quanto ainda possa proteger quem trabalha.
No entanto, e se por hipótese académica, o «Observador» fosse uma publicação de esquerda, logo veríamos os mesmos pivots a sublinharem essa condição como se aceite como natural a pertença à direita e uma excentricidade a opção pelo campo ideológico contrário.
Da mesma maneira não escapa a JVM o esgar quase inconsciente, que os pivots dos telejornais fazem quando referenciam algum dirigente do PCP, o que não acontece quando citam Passos Coelho ou Cristas nos maiores dislates que possam estar a dizer, mas cujo fundamento nem sequer equacionam.
Estamos numa fase crucial no que diz respeito ao tipo de comunicação social, que existe para nos informar. A atualmente existente desinforma-nos, quer-nos manipular, procura aliciar-nos para valores cuja falência está mais do que comprovada por factos, que tudo fazem por nos sonegar.
Criar as condições para a viabilização de imprensa escrita e audiovisual de acordo com o que precisam os cidadãos para tomarem mais responsavelmente as suas decisões torna-se imperativo, que não pode ser adiado por mais tempo. Importa criar uma grande movimentação de quem, nas redes sociais, está disposto a apostar em tal tarefa. Contribuindo para que, sem espectadores ou leitores, a atual comunicação social dominada pelos interesses dos que pretendem continuar a ser donos disto tudo conheça a merecida falência.

1 comentário:

  1. E porque não um modelo cooperativo de jornalismo, no início só em formato online, recorrendo apenas a publicidade paga por organizações com código ético de investimento, e com alguns conteúdos restritos para quem se dispusesse a pagar uma assinatura? Eu investia logo 100 € e tornava-me depois assinante. A 'The Nation' nos EUA funciona, segundo creio, seguindo em parte este modelo... Alguns de entre as centenas de milhares de simpatizantes e militantes do PS que elegeram António Costa nas primárias de 2014 estariam certamente dispostos a contribuir...

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