domingo, 31 de julho de 2016

O contágio do tal otimismo que irrita Marcelo

Agora que os principais programas de debates políticos entraram em férias de verão é curioso assinalar, de entre tantos opinadores da nossa realidade, a evolução recente do pensamento de Pacheco Pereira. Questão não despicienda, porque apesar de se situar ideologicamente à direita, ele tem capacidades intelectuais muito acima da média dos que costumam ocupar tempo de antena nas nossas televisões, razão porque uma mudança como a verificada ganha outro sentido.
É que, durante meses a fio, ele apostou em como a União Europeia nunca perderia uma oportunidade para sabotar os esforços do governo português em demonstrar a eficácia de uma política alternativa à da austeridade, criando as condições para, mais tarde ou mais cedo, concretizar o fim da Geringonça.
Ora a forma como António Costa geriu este dossier das possíveis sanções, angariando apoios importantes, que permitissem retirar o país do isolamento também sentido pela Grécia de Tsipras, quando sofrera ataque similar, constituiu para Pacheco Pereira o sinal de algo a mudar nos paradigmas dominantes até aqui.
É verdade que começam a ser cada vez mais frequentes os relatórios e as declarações de gente insuspeita sobre o fracasso das receitas austeritárias e dos efeitos perversos por elas suscitadas no conjunto da economia europeia. Algo com que Tsipras não pôde contar apesar de não ser muito diferente o que então dizia Varoufakis em relação ao que se escreve no relatório independente recentemente conhecido por quem avalia, a seu pedido, a estratégia do FMI. Mas a superioridade de um verdadeiro líder está em analisar as suas forças e fraquezas a cada momento e potenciar as primeiras em detrimento das segundas, criando as condições mais consentâneas com o que verdadeiramente pretende.
O que distingue Costa de Passos Coelho é que onde este último sentia a crise como fatalismo aquele vê a oportunidade para dela sair, avançando com novos rumos, Porque porfiar no que está comprovadamente errado, como se pudesse conduzir à redenção salvadora, só mostra incompetência senão mesmo estupidez. E o ainda líder da Oposição vai demonstrando dia-a-dia a indigência da sua análise do passado e do presente e a incapacidade de vislumbrar qualquer Visão de futuro no nevoeiro cerrado, que lhe ocupa a mente. Pelo contrário António Costa revela a audácia de pensar diferente, de encontrar soluções inovadoras e de negocia-las atempadamente com quem o poderá ajudar a concretizá-las. Nesse sentido, e por muito que custe a Clara Ferreira Alves, que ainda não conseguiu engolir o despeito de ter errado em todas as “leituras” que fizera sobre o desempenho de António Costa desde que se tornou no secretário-geral do Partido Socialista, ele nada tem de meramente tático, revelando-se continuamente como o grande estratega que conseguirá retirar o país da beira do abismo para onde a direita o empurrou nos últimos cinco anos.
Por isso mesmo faz sentido a evolução do pensamento de Pacheco Pereira que se vai livrando do seu justificado pessimismo para começar a sentir o contágio do tal otimismo, que se associa aos sucessos que o governo vai conseguindo. Cá dentro e lá fora.

2 comentários:

  1. Jamais confiarei em Pacheco Pereira...
    Sofre de mimetismo, como algumas cobras.
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  2. Agora sou eu que o ultrapasso pela Esquerda. Não acho de todo Passos um fatalista. Ele apoiou a receita da Troika (e foi além dela) porque viu na crise uma oportunidade para implementar uma agenda que já tinha ensaiado em tempos com uma tentativa frustrada de revisão da CRP. Como sabemos, no primeiro ano do seu Governo, conseguiu de facto fazê-lo. Passos, assim como muitos dos comentadores da Direita consideram que o País só conseguirá desenvolver-se se se livrar da sua 'Constituição Socialista'. Não esquecer que para Passos, Singapura é um modelo a seguir...

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