quarta-feira, 6 de julho de 2016

Descarados, exploradores e negligentes

1. Que eu desse por isso não fui um dos «premiados» com o convite para a Universidade de Verão do PSD, que terá sido enviado a uma boa parte dos que constam da lista de endereços da newsletter do «Expresso Online». Por uma vez sou obrigado a desdizer-me quando exijo a justiça de, se há convites para uns, têm de haver para todos! Desta feita prescindo bem da “honraria”…
O episódio tem, porém, duas leituras imediatas: por um lado os organizadores dessa iniciativa, devem estar tão aflitos em arranjar «macaquinhos» para servirem de figurantes em tais imagens - apenas visando ocupação de tempo antena gratuito nos telejornais! - que já se servem dos expedientes mais desajeitados. Por outro lado há a progressiva falta de pudor das publicações e dos canais televisivos de Balsemão ao serviço do PSD.
É claro que vieram pedir desculpa pelo sucedido, mas a impunidade com que a partidarização dos meios de comunicação anda a evoluir merece mais do que o repúdio dos que a não aceitam, reiterando-se a urgência da ERC no sentido de fazer cumprir a objetividade a que, legalmente, e até contratualmente no caso das televisões, estariam obrigados.
2. As notícias sobre nepaleses resgatados de estufas da zona de Almeirim onde se sujeitavam a trabalho escravo são mais uma prova da falta de escrúpulos dos que olham para os lucros, e não para os seus deveres enquanto patrões. É que, embora possam invocar a política de esmagamento de preços aos fornecedores por parte dos hipermercados - também eles responsáveis a montante por estas situações ignóbeis! - não lhes pode ser indiferente o tipo de alimentação, alojamento e remuneração a que esses emigrantes vindos de longe estão sujeitos. Considerá-los-ão sub-humanos sobre os quais se podem praticar as maiores indignidades? Ou quererão enganar-se com a mentira praticarem o «piedoso bem» por lhes darem o trabalho, que não encontram donde vêm?
E o mais inquietante é sabermos que, em vez de estarem a diminuir, este tipo de casos de polícia, vão sendo cada vez mais frequentes…
3. O feitiço a virar-se uma vez mais contra o feiticeiro? Será que o PSD tanto quis a Comissão de Inquérito par(a)lamentar da Caixa Geral de Depósitos, que se arrisca a vê-la concluir pela sua responsabilidade nos muitos milhões necessários para a recapitalizar?
Foi isso mesmo que Mário Centeno veio sugerir ao apontar o "desvio enormíssimo" no plano de negócios da CGD, acima de três mil milhões de euros, herdado da gestão "negligente" do governo liderado pelo PSD.
Não é difícil encontrar razões para essa estratégia de Passos Coelho nos últimos quatro anos. O seu desejo confessado de privatizar o banco obrigaria a degradar-lhe a situação financeira de forma a não possibilitar qualquer outra alternativa, quando chegasse a altura de o resgatar.
Ora, nesse sentido, a lógica sempre passou pela tese de não intervir no setor bancário, “acreditando” que a mirífica “mão invisível” operasse prodígio miraculoso. E assim deixou o BES e o Banif evoluírem até à bancarrota, assim como assegurou a progressiva degradação do banco público até quase atingir esse patamar de irreversibilidade.
No que acreditariam Passos e Maria Luís? Que os novos donos os viessem a premiar com a mesma generosidade que a Mota-Engil revelou para Paulo Portas?
A Comissão de Inquérito poderá redundar numa questão singela: tanta negligência não constituirá crime merecedor de atenção pelo Ministério Público?

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