sábado, 21 de maio de 2016

O elefante incómodo no meio da sala

O diagnóstico está feito e poucos duvidam dele: a União Europeia tal qual está atualmente a funcionar, não terá grande futuro.
Nesta altura não é só o Brexit a conferir essa ideia de se tratar de uma organização moribunda, que qualquer sacudidela aos seus frágeis equilíbrios parece acelerar  na direção do fatal desenlace.
Quando a direita quer distanciar o Partido Socialista da restante esquerda plural aponta para a suposta fronteira entre os “europeístas” e os que o não são. Mas engana-se com essa perspetiva que só poderá ter feito sentido alguns anos atrás: hoje são muitos os socialistas a ver a União Europeia como uma espécie de incómodo elefante no meio da nossa loja de porcelanas e cujo mínimo movimento poderá causar danos imprevisíveis.  Somos, ainda, “europeístas”, mas a contragosto, a partir do momento em que compreendemos a desigualdade de direitos e deveres entre as nações do Sul da Europa e as do Norte. E a Alemanha devolveu-nos a algo próximo da germanofobia, que já parecia enterrado desde o fim do nazismo.
Ao compreendermos que permanecer na União Europeia parece cada vez mais incompatível com a Democracia, põe-se a questão de saber até quando iremos suportar a permanente ingerência dos burocratas de Bruxelas na nossa soberania, arrogando-se de poderes para os quais não foram eleitos.
Porque a crise europeia não é mais do que uma das facetas da crise, por que passa o sistema capitalista, vale a pena aqui listar os seis principais desafios atualmente colocados à Europa comunitária. Em todos ela terá de vencer sob pena de conhecer inapelavelmente o seu fim.
O primeiro desafio é o da recessão económica, que já empurrou milhões de cidadãos para o desemprego e indigência. Sem um crescimento robusto, os problemas sociais agravar-se-ão e os cenários de Terceiro Mundo tornar-se-ão cada vez mais visíveis à nossa volta.
O segundo desafio focaliza-se na classe média, que importa defender enquanto estrato social capaz de estancar as crescentes desigualdades de rendimentos. Por quanto tempo aguentaremos uma situação em que 1% da população mundial tem 80% da riqueza gerada em todo o planeta?
Num terceiro desafio importará resolver com humanismo a crise dos refugiados, salvaguardando a tradição de acolhimento aos que fogem das perseguições políticas e religiosas, ou aos cenários de conflito.
Embora os anos mais recentes não tenham sido famosos para alguns dos principais países emergentes, não se poderá encarar com desatenção as estratégias da Rússia e da China para reconquistarem a importância estratégica e comercial, que já foi a sua.
O quinto desafio é o da ecologia, que exige medidas concretas para contrariar o aquecimento global e livrar a espécie humano dos riscos quanto à sua sobrevivência.
Há enfim a necessidade de combater os fenómenos de corrupção e de tráfico de influencias, que têm dado azo a todas as disfuncionalidades relacionadas com os paraísos fiscais, as bancarrotas de bancos devido às elevadas imparidades, etc.
Não havendo grandes expectativas quanto à resolução de todos esses constrangimentos,  esperemos que António Costa consiga apoios bastantes noutras capitais europeias para limitar a influência do PPE e contribua para a recuperação da matriz socialista, que há muito não se constata em tudo quanto é debitado pelos comissários, pelos membros do Eurogrupo ou pelos demais técnicos da Comissão...

1 comentário:

  1. Concordo com a sua exposição, mas gostaria de acrescentar algo que poderá ser díficil de digerir pela Esquerda Democrática. Efetivamente, graças à estagnação económica que começou com a entrada de Portugal no Euro, assim como ao endividamento das famílias, empresas e finalmente do Estado, sobretudo a partir de 2008, devido à grande recessão e às medidas contra-cíclicas tomadas por Sócrates, mas sobretudo devido à brutal queda da receita fiscal, endividamento esse que a presença no Euro permitiu, Portugal encontra-se de pés e mãos atadas relativamente àqueles que nos financiam. Não vale a pena sequer tentar agora discutir a possibilidade de saída do Euro, porque dado o triste estado do nosso sistema bancário, iríamos pelo caminho da Grécia ou pior da Venezuela (e sem o petróleo). E convém lembrar que a entrada no Euro foi igualmente subscrita pelos Socialistas. Há que reconhecer que o PCP tinha razão, mas que agora não há mesmo nada a fazer. É isto que eu julgo que Costa pensa, mas não pode dizer, e assim vai tentando uma via estreita que permita ganhar algum tempo e esperar que os Países do Norte se rendam à evidência de que a Europa entrou em deflação e que não é só com as políticas monetárias do Sr. Draghi (o único estadista que há por aí, triste sina a nossa) que vamos lá...

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