domingo, 3 de abril de 2016

As lições a tirar do Brasil

Há muitas diferenças entre o Brasil e Portugal, mas o que se vem passando no país de Lula e de Dilma, deve merecer-nos a devida atenção, porque, a exemplo do comportamento do juiz Sérgio Moro, que tem similitudes com os assumidos pelo procurador da Operação Marquês, a estratégia política da direita assume contornos de uma invariabilidade tão pouco imaginativa, quanto paradoxalmente eficaz.
Voltemos a 2013, quando o Brasil foi agitado por uma vaga de manifestações de rua contra os aumentos dos transportes. A interpretação de então foi esta: aqueles que Lula conseguira resgatar da pobreza já não se contentavam com quanto tinham conquistado e vinham para a rua exigir uma maior distribuição dos rendimentos. Aparentemente era uma luta política que se assumia à esquerda do governo de Dilma. Mas, se essa era a verdade, e muitos dos que constituíam a base social de apoio do PT interpretaram esse movimento social como um avanço, não previram a forte probabilidade de vir a ser recuperado pela direita para nele alavancar a contestação a quem sempre odiou.
Anda agora nos escaparates das livrarias um livro de Paulo Guinote a lembrar a luta dos professores contra o governo de José Sócrates persistindo na legitimidade de tais protestos. No entanto seria interessante, que o autor e quantos então deram prova da sua capacidade de mobilização, equacionassem até que ponto a vitória de Passos Coelho três anos depois, não deveu muito a essa exposição da fraqueza de um governo a contas com o que andava então a passar-se com a crise dos subprime. E, como isso significou depois para milhares de professores a perda de emprego e a redução de rendimentos e direitos laborais?
É por isso, que a esquerda, atualmente concertada no apoio a este governo, terá de ser muito cautelosa com os movimentos reivindicativos dos próximos tempos. Porque é muito fácil exigir direitos e regalias, mas quantas vezes, isso pode dar o ensejo para que os já conquistadas possam ser postas em causa.

1 comentário:

  1. Um ponto interessante, aquele que levanta. Diz-se que Roosevelt, depois de discutir um conjunto de medidas com representantes sindicais, disse-lhes: 'I want to do them, now go and make me do them'... A alma da Democracia é o Direito das Pessoas a lutarem pelos seus Direitos (e não o de lutarem contra os Direitos dos outros, como pensa a Direita). Para mais, nós sabemos como o PS infelizmente se deixou no passado capturar por outros interesses que não os das classes popular e média que são aqueles que lhe dão os votos e que deveria pois representar. Nesse aspeto, a marcação do BE e do PCP não é má coisa. Isto dito, concordo consigo, seria um tremendo tiro no pé fazer cair um Governo porque ele não é suficientemente de Esquerda, para acordar no dia seguinte com a Direita no Poder. Acho isso menos provável agora, dado que a função tribunícia do BE e do PCP deixou de ter uma mera componente de protesto e passou a ter uma real componente de veto na AR (como os tribunos da plebe no Senado Romano) . E isso já se fez notar no discurso de Arménio Carlos. O que eu posso esperar é que todas as partes revelem bom-senso e pragmatismo, porque caso contrário a 'Geringonça' desconjunta-se...

    ResponderEliminar