domingo, 17 de abril de 2016

A conquista noturna das praças

Algo de novo está a passar-se em França com o surgimento do movimento “Nuit debout”. Porque quando tudo apontava para uma provável vitória da direita nas presidenciais do próximo ano, são os jovens quem conquistam a rua e começam a fazer-se ouvir num protesto cada vez mais ensurdecedor. De repente surgem muitas dúvidas sobre vencedores anunciados, mormente sobre a capacidade de regeneração dos socialistas e dos seus potenciais parceiros à esquerda.
Essa mobilização decorre do desemprego larvar, que faz desesperar essa juventude, ciente de nenhuma das promessas de Hollande ou de Valls terem sido cumpridas. Pelo contrário, é essa mesma geração quem rejeita com maior indignação a proposta de retirar a nacionalidade aos suspeitos de terrorismo, que constitui exemplo revelador das sucessivas traições do suposto governo socialista aos valores fundamentais da República. O copo já cheio trasvazou com a nova lei do trabalho, que promete ainda maior precarização para quem tiver a sorte de satisfazer o direito a um emprego.
A leitura feita pelos contestatários é esta: já que qualquer governo eleito com as atuais regras ditas democráticas acaba sempre por subalternizar os interesses dos cidadãos, não será altura de mudar de sistema político?
A vitória de Jeremy Corbyn para a liderança do Partido Trabalhista inglês demonstrou a exequibilidade de tornar possível o almejado revigoramento da esquerda se a opção passar pelo escrutínio dos militantes e, sobretudo, dos simpatizantes em eleições primárias. Mas os líderes do novo movimento também estão atentos ao exemplo grego onde Tsipras perdeu momentaneamente o combate contra as instituições e certos figurões, que sempre  intentam reduzir o pluralismo, quando ele se torna demasiado incómodo.
Será muito interessante acompanhar este novo movimento, porque ele parece muito determinado a recorrer às estratégias bem sucedidas, que têm feito de Bernie Sanders um candidato surpresa à Casa Branca, mas também a não se distraírem do carácter maligno hoje assumido por grande parte dos atores radicados em Bruxelas, Frankfurt ou Estrasburgo. Contra os quais há que afinar a pontaria...

1 comentário:

  1. Porque não sonhar? Se o sistema actual não está a dar resposta ás necessidades das populações europeias porque não tentar mudar alguma coisa para que tudo não fique na mesma? A Europa de hoje não é mesma de 2008. A receita que o directório europeu impôs aos europeus, particularmente aos países intervencionados não resultou, bem pelo contrário impôs sofrimento que todos sabemos hoje que não seria necessário. Na Europa existem sinais encorajadores de que há vontade de fazer algo para reverter as politicas que nos conduziram ao estado em que estamos.

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