sexta-feira, 11 de março de 2016

Uma mão cheia de comentários

1. Vozes amigas têm-me aconselhado mais comedimento na forma como falo do novo Presidente da República:
- Vais ver que ele não constituirá nenhum perigo para o António Costa!
E acrescentam o risco em que incorro ao parecer tão “incorreto” como foram os deputados do PCP ou do Bloco ao recusarem-lhe palmas no discurso de investidura.
Todos esses comentários não me impedem de pensar que Marcelo Rebelo de Sousa só chegou a Presidente da República para satisfazer a sua enormíssima vaidade pessoal e, quiçá, livrar-se do estigma de sempre ter sido visto como filho e afilhado de fascistas.

Porque, verdade, verdadinha, que ideias inovadoras trouxe ele para os cenáculos políticos? Que ideia de país é a sua?
Concedo que é um pragmático e, por o ser, é que não fará ondas enquanto os ventos correrem de feição a António Costa. Mas a adensarem-se as nuvens nos céus turbulentos deste cantinho à beira-mar plantado e ei-lo a não poder ser outra coisa do que aquilo que sempre foi: um homem posicionado à direita do nosso espectro político e a revelar-se assim mesmo em muitíssimas ocasiões, desde a campanha para negar o direito ao aborto às mulheres até à demonstração do desrespeito das leis, quando redige textos em desrespeito pelo Acordo Ortográfico em vigor!
2. Na RTP o João Galamba respondeu a José Eduardo Martins e a André Macedo, quando estes teceram elucubrações pessimistas a respeito do futuro do atual governo. E a realidade é a que o deputado socialista enunciou: já foram inventadas tantas possibilidades de desacordos entre o PS e os partidos à sua esquerda e todas elas falharam clamorosamente. Imaginaram-se tantos obstáculos, internos e externos, a que este Orçamento tivesse possibilidade de existir e aí está ele a ser aprovado, primeiro na generalidade e amanhã na especialidade. E, no entanto, a direita masturba-se a imaginar o momento em que o «problema surgirá e o pote poderá ficar novamente à sua disposição.
Desenganem-se!, foi o que Galamba disse aos parceiros de painel: a capacidade de diálogo permanente com o Bloco e com o PCP tem sido tão frutuosa, quanto fácil de gerar consensos … até porque muitas das medidas supostamente impostas ao PS por tais partidos já figuravam no seu programa eleitoral! 
O problema é que os comentadores do costume não o quiseram ler ou entender…
3. Tem sido muito elogiado o discurso de Ferro Rodrigues na despedida de Cavaco Silva, enfatizando a sua longa “dedicação”  ao serviço público.
Eu sei que, nesse tipo de cerimónia, a diplomacia tem de ser uma regra. Mas é preciso tomar muitos alka seltzers para atestar esse tipo de atributo no exemplo paradigmático do que Robert Musil definia como o homem sem qualidades.
4. Como tenho de imitar Ferro Rodrigues nessa capacidade para ser piedoso - mesmo que impenitentemente ateu! - vou-me escusar a qualificar a galeria que compareceu à apresentação do livro de António José Seguro numa instituição privada de ensino universitário em Lisboa.

Todos os expoentes do segurismo puseram-se na primeira fila para serem vistos e alguns proeminentes membros do PSD fizeram-lhes companhia.
De esquerda poucos vi e provavelmente só por se sentirem obrigados a marcarem o ponto! Mas já fiquei descansado ao ver o protagonista da celebração a confessar a descoberta de haver mais vida para além do universo partidário.
Que tenha um brilhante futuro de docente universitário é o que se lhe posso desejar, conquanto não ambicione envergar vestes de dom sebastião nalguma futura manhã de nevoeiro.
5. A intenção da Justiça brasileira em prender Lula tem contornos inquietantemente semelhantes com a perseguição feita a José Sócrates entre nós.
Tal como por cá houve a campanha dos pasquins para disseminar as mentiras e difamações contra o antigo primeiro-ministro, assim agiram a «Veja», a Tv Globo e mais um conjunto de jornais e televisões conotados com a conspiração para derrubar o Partido dos Trabalhadores e devolver o poder à clique elitista, jamais incapaz de aceitar ver-se governada por um operário metalúrgico.
Quando a Justiça decide fazer política são os fundamentos do Estado de Direito, que ficam em causa...

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