quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Que las hay, las hay...

O que acontecerá no day after às eleições? Ao contrário do que cheguei a acreditar possível, tenho de aceitar a forte probabilidade de a vitória do dia 4 ficar aquém da desejável maioria absoluta socialista.
Infelizmente não somos canadianos. Pelo menos aqueles que, em 1993, vi penalizarem o Partido Progressista Conservador cuja governação fora tão antipopular, que os fez passar 154 deputados para apenas 2. Seria esse o verdadeiro castigo que passos coelho e paulo portas mereciam.
Mas, provavelmente, Kim Campbell - assim se chamava a primeira-ministra então derrotada - não contou com a reconhecida competência da equipa de marketing político, que conseguiu transformar em sucessos os que se julgavam óbvios fracassos da (des)governação da direita nestes quatro anos.
Essa equipa, liderada por brasileiros, criou a sua estratégia depois do verão revogável de portas e podemos caracterizá-la em três eixos principais:
O primeiro foi a exploração até à náusea da “pesada herança socialista”, que teria levado o país até à bancarrota e chamado a troika.
Repetindo incessantemente essa tese conseguiram silenciar o facto de ter existido uma tremenda crise internacional causada pela bolha imobiliária dos EUA (os subprimes), de a Comissão Europeia assumir a prioridade no máximo investimento em grandes obras públicas (explica-se assim a possibilidade de novo aeroporto, TGV e outras autoestradas), até, assustada com o buraco assim criado, ter recuado para gravosas políticas de austeridade. Nenhuma dessas condicionantes seria possível de ser travada pelo governo de José Sócrates.
Mas o lado mais escandaloso desta estratégia passou pela tentativa de passar culpas quanto à autoria do pedido de intervenção da troika. Apostando na possibilidade dos portugueses terem memória curta, os marketeiros da direita, quiseram negar todas as afirmações documentadas de passos e de catroga ou até a aliança tática estabelecida com comunistas e bloquistas para condenarem o PEC IV.
Por muito que tenham algum transitório sucesso na mistificação, a História registará o facto de José Sócrates ter sido até ao último momento um tenaz opositor a tal solução, só a ela sendo obrigado quando sofreu pelas costas a golpada traidora de teixeira dos santos.
O segundo eixo da estratégia eleitoral da direita passou por mascarar os números o mais possível, fazendo com que se chegue a 4 de outubro com um retrato oficial do país, que não é nada condizente com o verificado na realidade.
A cultura de fazer batota, como ainda ontem foi denunciada no caso da ordem de maria luís albuquerque à Parvalorem para disfarçar os prejuízos do BPN, longe de ser caso isolado foi a prática comum aos quatro anos de (des)governação.
O desemprego foi disfarçado até ao limite de começar a revelar-se na sua verdadeira dimensão logo a seguir ao dia 4 de outubro, como se constata com a subida já verificada em agosto. De facto os estágios pagos durante meses a fio com dinheiros europeus, que deveriam ter sido melhor orientados para a criação de empregos sustentáveis, não conseguem disfarçar a incapacidade de a economia efetivamente pouco alavancar para um crescimento digno desse nome. E, se no pico do verão os desempregados já aumentaram para mais 5 mil, como será a realidade de outubro quando a sazonalidade estival obrigar à rescisão com todos os precários entretanto contratados para os trabalhos só viáveis nesse curto período?
Será essa uma das primeiras dificuldades da governação de António Costa como primeiro-ministro: tendo em conta que os cenários macroeconómicos elaborados para dar forma ao programa eleitoral foram criados a partir de números fraudulentamente alterados pela direita, as dificuldades para iniciar a implementação da Agenda para a Década serão ainda maiores  que o previsível.
Quanto à terceira parte da estratégia sei-a polémica, e até conotável com as chamadas teorias da conspiração, mas como dizem os espanhóis das bruxas, “que las hay las hay”. E o sinal mais evidente dessa forte probabilidade está no facto de rosário teixeira impedir os advogados de José Sócrates consultarem o processo do seu cliente antes do dia das eleições, apesar da decisão em contrário do Tribunal da Relação.
O que iriam eles encontrar, que seja tão comprometedor nesta altura? Que o ministério público tem uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma quanto a provas contra o antigo primeiro-ministro?
Será, então, crível que a coligação de interesses entre rosário teixeira (apoiado totalmente por joana marques vidal), carlos alexandre e o pasquim matinal da Cofina tenha tido apenas por móbil a intenção de “fazer justiça” ou “informar os leitores”?
Será coincidência que tudo tenha sido feito para que Sócrates fosse preso um ano antes das eleições e o “segredo de justiça” ter sido ilegitimamente utilizado como ferramenta, que serviria de principal arma eleitoral para as eleições próximas?
É claro que António Costa não podia repetir outra coisa senão a frase politicamente correta de defesa da independência entre poderes políticos e judiciais. Mas o que sucederá se se confirmar a utilização crapulosa da Justiça para facilitar a vitória eleitoral do governo em funções? Terá de haver gente altamente posicionada no ministério público a sentar-se no banco dos réus, fazendo companhia ao juiz que lhes terá servido de cúmplice ativo.
É claro que, para além destas três vertentes de uma estratégia, em parte, bem sucedida, os seus criadores foram ensaiando outras de passagem, consoante iam tendo oportunidade, como foi o caso dos acontecimentos na Grécia. Começaram por ter um medo terrível quanto ao sucesso do Syriza - e por isso mesmo aliaram-se ao governo espanhol para pressionar merkel a ouvir mais schäuble do que o seu parceiro de coligação - e quiseram cavalgar a lógica do “there is no alternative” (a tal TINA de que fala Pacheco Pereira). Até concluírem os riscos de exagerarem na dose como fizeram com o trunfo Sócrates, subitamente desperdiçado pela atrapalhada intervenção de paulo rangel.
Com tanta competência será que a vitória do PáF será tão provável quanto o preveem algumas “sondagens”? Continuo otimista quanto a estarem tão enganadas, que serão um dos temas principais das discussões políticas das próximas semanas: como poderão ter-se desviado tanto dos resultados de 4 outubro?
Mas, sinceramente, mesmo muito sinceramente, estou cheio de pena, que os eleitores portugueses de 2015 não sejam tão esclarecidos quanto o foram os canadianos em 1993.

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