terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Silenciados

«Silenced», o filme de James Spione, de que aqui se anexa o link para ser visto na sua versão integral, é um daqueles documentários de visão obrigatória. Porque, quando pensamos nas ilegítimas perseguições a José Sócrates ou Edward Snowden, temos de concluir que a tentativa de silenciamento dos que denunciam a prepotência ilegítima de quem detém o poder é muito mais grave do que supúnhamos. Nomeadamente nos Estados Unidos como se comprova neste filme que foi nomeado para os Óscares.
Conhecemos, através dele, três cidadãos - John Kiriakou, Thomas Drake e Jesselyn Radack -  que correram enormes riscos para denunciar as praticas do seu governo na «guerra contra o terrorismo».
Kiriakou trabalhou quinze anos na CIA até confirmar a utilização sistemática de tortura pelos agentes americanos. Drake estava na NSA - a National Security Agency, que Snowden tanto celebrizou - quando revelou, em 2006, o sinistro projeto Trailblazer, que permitia vigiar as telecomunicações de todos os cidadãos norte-americanos em clara violação com a Constituição. Jesselyn Radak, hoje advogada do mesmo Snowden, estava numa posição de destaque no Departamento da Justiça, quando denunciou em 2002 as condições de detenção de John Walker Lindh, um americano filiado na al-Qaeda e capturado durante uma operação no Afeganistão.
De um dia para o outro, Kiriakou, Drake e Radack viram destruído o privilegiado estatuto social de que usufruíam e passaram a ser considerados uns párias pela Fox News e seus derivados.
James Spione acompanhou os três rebeldes durante vários meses captando exemplos eloquentes de como a Administração norte-americana, quer liderada por Bush Jr., quer por Obama, se empenharam em silencia-los, se não mesmo em destruí-los. Foram despedidos, sabotaram-lhes a possibilidade de encontrarem novos empregos, ficaram sem  meios financeiros para pagarem aos seus advogados, foram assediados por agentes do FBI, viram as respetivas famílias ameaçadas.
John Kiriakou ainda sofreu mais do que isso, porque foi condenado a trinta meses de prisão, que está a cumprir desde janeiro de 2013.
Jesselyn Radack explica que, no passado, os que lançavam este tipo de alertas tinham de escolher entre a sua consciência e a carreira. Mas agora arriscam a liberdade, senão mesmo a própria vida.
Existe um paralelismo inquietante com o Estado descrito por Orwell em «1984». Há sessenta e cinco anos o seu autor profetizava: nos momentos de crise não é contra o inimigo exterior que se luta, mas contra si próprios.
Nos Estados Unidos a crise teve origem nos atentados do 11 de setembro: desde então, o simples ato de falar tornou-se num crime e o segredo numa norma.
Surgiu um regime securitário simbolizado pela utilização frequente do Espionage Act, uma lei muito ambígua datada de 1917.  Na história norte-americana só dez pessoas foram condenadas sob a invocação de tal lei celerada. Sete foram-no durante a presidência de Obama. 

1 comentário:

  1. Abraham Chévre au Lait13 de janeiro de 2015 às 12:46

    A crise começou muito antes do que diz: muito antes do verdadeiro 11 de Setembro. o de 1973,no Chile. Já a ânsia e a angústia por uma segurança que jamais existiu no mundo se tinha apoderado da sociedade dita ocidental.

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