quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Um debate que prefigurou os que protagonizarão Costa e Seguro

Confirmadas as duas candidaturas de António José Seguro e de António Costa às Primárias, sem que se perfilassem outros postulantes, abriu-se o tempo dos debates.
O primeiro aconteceu ontem na TVI 24 e teve João Proença e Vítor Ramalho enquanto apoiantes de cada um desses candidatos.
O interesse era grande pelo carácter de aperitivo aos que colocarão frente-a-frente o ainda secretário-geral e o presidente da câmara da capital. Procurar-se-iam antever algumas das principais argumentações, que distinguem as duas candidaturas e as permitem ser justamente apreciadas pelos militantes e simpatizantes socialistas.
Comecemos pelo comportamento, que se torna logo um aspeto de clara distinção entre ambas: enquanto Vítor Ramalho tem a pose senatorial de quem já muto viveu e possui o conhecimento de experiência feito, João Proença interrompeu, esbracejou, bufou, com um nervosismo de quem se sabe incapaz de se pretender alcandorar ao patamar de prestígio do seu oponente.
Os espectadores puderam ver aquilo que as redes sociais têm demonstrado: enquanto quem defende Costa possui a convicção da justeza dos seus argumentos e por isso os apresenta sem rodeios, os de Seguro, à falta deles, insultam, difamam e mentem…
Deu-se até a singular confirmação de uma tese que já vinha sendo emitida a propósito de Seguro, mas que se vê agora alargada aos seus braços-direitos: é bastante mais significativa a determinação com que atacam Costa, e os seus apoiantes, do que o fizeram nestes três anos contra o Governo.
Tivesse Proença mostrado tanta indignação quando, ainda secretário-geral da UGT, enfrentava patrões e governo e não teria sido cúmplice das revisões sucessivas das leis laborais, que as transformaram numa mera caricatura do que eram e permitiram as facilidades de despedimento e a precarização do trabalho, que constituiem um dos desafios a ser enfrentado pelo próximo governo. Até por se ter entretanto desmascarado uma das falácias mais divulgadas nos últimos anos: que o investimento estrangeiro só não criava milhares de postos de trabalho em Portugal porque essa legislação não era suficientemente flexível.  Agora que ela o é onde estão esses prometidos empregos?
Mas o debate teve outros momentos bastante interessantes de que vale a pena destacar três:
· quando se desmascarou um dos argumentos da campanha de Seguro segundo a qual ele teria percorrido o «caminho das pedras» durante estes três anos e quem, de facto, o palmilhou foi o povo português. Seguro nunca terá sido mais do que a «madre lacrimosa», que terá chorado as penas do filho sem nada fazer;
· quando Proença elogiava a novidade do referendo aos militantes para escolherem eventuais parceiros de coligação e Ramalho lembrou - demonstrando que além de desrespeito pela história do Partido, a atual direção tem dela um profundo desconhecimento - já ter isso sucedido nos tempos de Mário Soares quando houve consulta interna para uma coligação de governo com o CDS;
· quando à falta de argumentação, Proença arengava quanto à falta de referencia à CPLP na moção de Costa, numa falsidade total já que a exploração do potencial do crescimento económico junto dos países de língua portuguesa é um dos aspetos bem notórios de um dos principais pilares da agenda para a década;
Podemos lamentar que o debate que começara cordato e respeitoso - muito em função da atitude de Vítor Ramalho em deixar falar Proença sem o interromper - tenha depois perdido essa característica, muito por culpa deste último, que prenunciou a disposição para a «peixeirada», quando se tratarem de debates entre os dois candidatos.
Parece que a esperança de quem apoia Seguro é que ele mais alto fale e esbraceje como forma de não deixar ouvir o que António Costa tem a propor.
É que enquanto a moção de Costa tem trinta páginas ricas em ideias estratégicas, Seguro ficou pelas cinco cheias de vacuidades sem nexo... 

1 comentário:

  1. Mário Soares fez uma consulta interna para uma coligação de governo com o PSD, não com o CDS. Soares ganhou a consulta que deu origem ao chamado governo do Bloco Central (Mário Soares - Mota Pinto).

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