quarta-feira, 9 de julho de 2014

Habitar a substância do tempo

Daqui a não muito tempo olharemos para o início deste verão e espantar-nos-emos com quanto o tempo ainda parecia parado, sem acelerar para as inevitáveis tendências, que o futuro já indica.
Um bocado como o sucedido há 46 anos quando, no início do mês de maio, um dos principais jornais franceses anunciava que, face à falta de acontecimentos relevantes, a França estava a aborrecer-se. E, no entanto, poucos dias se passaram até às greves gerais e às batalhas campais pelas ruas do Quartier Latin.
É certo que há quem se surpreenda com os 7-1 da Alemanha ao Brasil em Belo Horizonte, mas essa é notícia irrelevante a ser arrumada na gaveta das curiosidades desportivas destes dias. Outros recordarão os problemas de Sarkozy com a justiça ou a cena de filme de zombies em que cavaco quase comeu a mão de letízia.
Continuamos com o desgoverno a desgovernar como julga que lhe compete, com maria luís a liderar os ministros das finanças europeus na desaprovação das propostas italianas de flexibilização do Tratado Orçamental  (um fanático, quando assim se torna num dia, nunca mais deixará o seu desvario!) e com a Oposição a fingir que o é enquanto não for removido o principal escolho à sua verdadeira emancipação clarificadora.
E, no entanto, este pode ser o último verão do nosso descontentamento! Porque não são apenas os intelectuais reunidos anteontem no Mercado da Ribeira para apoiarem António Costa a darem o sinal de uma mudança de ares, que em breve levarão dos céus do país os odores pestíferos deixados por esta Direita. De norte a sul, bem tentam os interessados em que as coisas continuem a ser como são, mas não conseguem travar a intensa mobilização em torno da candidatura de António Costa à liderança do Partido Socialista.
Bem pode o «Correio da Manhã» retomar as campanhas de difamação já desenvolvidas contra José Sócrates, como se o seu escrevinhamento de sarjeta ainda conseguisse convencer muitos incautos!
Há mesmo algo a mudar e isso viu-se precisamente com a greve dos médicos em que os telejornais  tiveram dificuldades em recolher os habituais testemunhos de gente revoltada com os «madraços, que não querem é trabalhar!».  Pelo contrário: a maioria das pessoas prejudicadas por essa greve mostrou uma grande compreensão com os motivos para ter sido convocada, já que também se sentem indignadas com os escombros deixados pela destruição de todas as conquistas tão dificilmente conquistadas para o Estado Social seja na saúde seja na educação.
É que, ademais, os donos do país também andam a facilitar em demasia a criação de um clima de rejeição quanto aos seus comportamentos indignos: saber que ricardo salgado leva para casa uma reforma obscenamente elevada e que o pingo doce está a preparar a transferência para a Suíça do que aqui resta da sua organização administrativa, só justifica a exigência de um Novo Rumo diferente do que, homonimamente, António José Seguro estava a pretender traçar para o Partido Socialista.
Por isso mesmo haveremos de recordar este verão como o último em que o arrivismo inconsequente do ainda líder da Oposição o terá levado aos gestos mais desesperados para evitar a condenação á irrelevância política. Sem qualquer sucesso, porque as dinâmicas de  vitória, quando arrancam, tornam-se avalanchas, que tudo arrastam à sua frente!
Muito em breve estaremos projetados para as grandes batalhas pela imposição de quanto é necessário para acabar com esta desesperança empobrecedora, varrendo a Direita que não sabe como manter ligada a máquina ao seu falido neoliberalismo e a Esquerda das Terceiras Vias meio troca-tintas, incapaz de renovar os discursos e objetivos.
Sem passos coelho, nem portas, nem Seguro, recuperaremos a liberdade de voltarmos a habitar a substância do tempo!

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