sábado, 23 de novembro de 2013

POLÍTICA: Sim! Em Portugal também temos lumpemburguesia!

Em «O 18 de Brumário de Luís Bonaparte», Karl Marx descreveu as características de um substrato social, que designou por lumpemproletariado, constituído por gente miserável, disposta a vender-se por um punhado de lentilhas para se misturar com os explorados para melhor lhes sabotar o combate contra os seus exploradores. Não existem neles quaisquer escrúpulos, nem sentido de solidariedade, parecendo contentar-se com o parco reconhecimento dos seus clandestinos cúmplices. Em tempos idos era este o tipo de canalhas que, a troco de gratificações reduzidas, se fazia bufo da pide para denunciar quem se atrevia a contestar o salazarismo.
Agora, numa entrevista muito interessante concedida a António Guerreiro (Ípsilon, 1/11/2013), o escritor Claudio Magris recorre a um termo similar para designar os fernandos ulrichs, os joões césares da neves e as margaridas rebelos pintos italianas, que revelam a mesma falta de pudor na forma como defendem os mesmos interesses: a lumpemburguesia. É assim que o autor de «Danúbio» explica o seu neologismo: uma burguesia que tanto no plano intelectual como moral perdeu o sentido da decência e do respeito e começou a agir e a falar com uma tal vulgaridade que não julgávamos que fosse possível.
De facto, perante o «aguenta aguenta» de um, o nojo pelos que criticam a autoridade de outra ou a falsa pobreza dos pensionistas do outro, surpreendemo-nos sucessivamente com a ultrapassagem das fronteiras de decoro, que julgávamos admissíveis numa sociedade de valores humanistas. Mas a crise dos últimos cinco anos tem sido pródiga na revelação do verdadeiro rosto de um conjunto de “personalidades públicas”, que se não mereciam a nossa simpatia, também não suscitavam grandes estados de alma. É por isso que o neologismo proposto por Magris faz todo o sentido por constituir forma expedita de classificar uma componente da burguesia lusa a ser execrada como incompatível com a sociedade democrática, por ora tão ameaçada, mas a que continuamos a aspirar...  


1 comentário:

  1. Além da entrevista, temos no mesmo suplemento a coluna semanal de António Guerreiro adaptada ao caso português. Imperdível. Quem lê? António Guerreiro é difícil. Precisávamos de um tradutor e publicá-lo no Correio da manha, no meio da facadas, mamas e rabos ao léu.

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