quarta-feira, 21 de agosto de 2013

DOCUMENTÁRIO: «As Sementes da Cólera» de Bettina Borgfeld, David Bernet et Christin Stoltz (2011)

Ao contrário dos demais países europeus ainda não se discute em Portugal a validade ou os malefícios das sementes transgénicas, sobrando suspeitas de envolvimento de lobbies poderosos com partidos políticos de forma a facilitar a sua implantação por toda a Europa.
Em França, aonde François Hollande deu provas, uma vez mais, da sua tibieza de carácter ao estabelecer recentemente uma moratória para a proibição dessas sementes, o debate está na ordem do dia e não admira que o canal ARTE tenha programado este documentário de hora e meia sobre a cultura de soja transgénico no Paraguai e consequências gravosas dessa revolução agrícola.
Os defensores das sementes transgénicas apresentam argumentos aparentemente incontestáveis: a população mundial está a consumir cada vez mais proteínas animais, pelo que o soja cultivado intensivamente tornou-se naquilo que o petróleo é para a indústria automóvel: a principal matéria-prima. Ora, para aumentar o rendimento dessa leguminosa com substanciais qualidades nutritivas (cada grão tem 40% de proteínas!) é necessário transformá-la geneticamente de forma a torna-la mais resistente ao glifosato, que é o herbicida mais eficaz.
Mas esta logica implacável tem o seu reverso com consequências colaterais terríveis: desastre ambiental suscitado pela toxicidade do herbicida e exclusão social, porque os agricultores ligados às multinacionais produtoras das sementes vão-se apossando de cada vez maior superfície de terras cultiváveis.
O filme é centralizado em Geronimo, um pequeno camponês paraguaio, que se viu rodeado de grandes plantações de soja transgénico em latifúndios quase todos pertencentes a brasileiros.
Vítimas das contaminações suscitadas pelo uso intensivo de pesticidas, os pequenos camponeses decidem organizar-se para lutarem contra a destruição do seu habitat e pela preservação da saúde dos filhos.
A realidade explicitada no filme é a de camponeses expulsos das suas terras, solos poluídos, deflorestação e envenenamentos - consequências sociais e ambientais  da lucrativa monocultura de soja geneticamente modificado no Paraguai, que se tornou num dos principais exportadores mundiais dessa planta.  O que se demonstra é um modelo de desenvolvimento agrícola destruidor, em que se confrontam duas forças desiguais: por um lado os grandes proprietários protegidos por milícias armadas, as multinacionais agroalimentares e os especuladores financeiros; pelo outro os camponeses, que lutam pela sua terra e pelos seus valores culturais.
Enquanto os primeiros optam por um discurso agressivo, típico de quem tem por si a força do dinheiro e das armas  - mesmo invocando “argumentos científicos” - os que estão no outro lado da trincheira ostentam a energia dos desesperados, que veem no soja transgénico uma maldição capaz de destruir a sociedade rural tradicional em que sempre viveram.
Neste combate entre exploradores e explorados, acabam por ser os primeiros a ganhar com a prisão dos camponeses por “ocupação ilegal das terras”. Mas perdida uma batalha, a guerra continua dentro de momentos.



1 comentário:

  1. A verdade é que a Europa não tem qualquer experiência com plantas transgênicas, exceto aquela pequena e limitada a uma variedade de milho em poucos países. Assim, tudo o que falam os especialistas europeus e os ativistas contra os transgênicos tem na verdade muito pouco valor, pois é derivado da ideologia e não do conhecimento prático.
    O Brasil adotou esta tecnologia e agora semeia 40 milhões de hectares de soja, milho e algodão transgênico. Os brasileiros consomem diariamente produtos formulados com estes dois primeiros cultivos, sem um único relato de problemas de saúde. Idem para os animais de criação e de companhia.
    Também não há relato de qualquer impacto sobre a fauna ou a flora silvestre, além daquele esperado pela agricultura intensiva, mecanizada e que lança mão de agrotóxicos que, de toda forma, já era adotada no país em larguíssima escala. A Transgenia não mudou uma linha da agricultura brasileira, quanto este aspecto.
    Enquanto isso, os transgênicos campeiam soltos na Europa, envolvidos na produção de enzimas, testes diagnósticos, vacinas, queijos, pão, vinho, e um mundo de outras coisas. E nenhum europeu está morrendo disso.
    É hora de acabar com a hipocrisia européia quanto aos transgênicos e retomar a racionalidade dos velhos filósofos europeus, que tanto contribuíram para a humanidade.

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