terça-feira, 7 de maio de 2013

FILME: «A Passageira» de Andrzej Munk


Nos anos 70 encontrei em revistas de cinema francesas as primeiras referências a este filme estreado em 1963, ainda que rodado parcialmente dois anos antes.
Desde então coloquei-o na lista dos filmes imperdíveis a ver nos anos seguintes mas, afinal, só passados quase quarenta anos é que essa possibilidade se concretizou através do ciclo atualmente a decorrer na Cinemateca até ao próximo sábado.
Passado todo este tempo a expectativa sobre ele criada justificou-se em pleno. Em primeiro lugar pelo tema em si: o da banalidade do mal inerente ao comportamento dos carcereiros para com os prisioneiros de Auschwitz. A negação da humanidade do outro persiste como um dos maiores dilemas de todos os tempos, porque traduzido em múltiplas formas de rejeição do Outro, seja sob a forma de racismo, de xenofobia, de machismo, de homofobia ou de qualquer outro tipo de comportamento equivalente..
Em segundo lugar há a forma como Witold Lesiewicz  deu corpo ao filme concebido pelo seu amigo Andrzej Munk depois dele ter falecido de acidente de viação aos 40 anos, quando ainda a rodagem ia a meio. De facto, ele passava-se em dois tempos e lugares: as cenas já rodadas referiam-se ao campo de concentração de Auschwitz e à relação amor-ódio entre uma guarda (Liza) e uma prisioneira (Marta).
O que estava por rodar, e se desconhecia como Munk pretenderia desenvolver essa parte, era a vivida a bordo de um navio de passageiros, aonde as duas mulheres se voltam a reencontrar passados muitos anos e todas as memórias voltam a adquirir uma pertinência entretanto diluída nos acontecimentos do pós-guerra.
Pode-se dizer que, em vez de desvirtuar o projeto do realizador, Lesiewicz optou pela solução mais inteligente e respeitadora do material, que herdara: uma voz off a contextualizar as fotografias desse tempo e local posteriores, aonde temos Liza a contar ao marido aquilo que, entretanto, lhe calara. Mas sem chegar a narrar-lhe a versão mais aproximada da verdade, que só ela e Marta conhecem e calam.
O debate que se seguiu à projeção - mediado por Anabela Mota Ribeiro e com a colaboração de Rui Cardoso Martins, Mário de Carvalho e José Pinto Ribeiro - foi interessante para aprofundar algumas das muitas questões levantadas pelo filme. Porque será sempre difícil de entender como gente banal, porventura capaz de gostar de música clássica ou de se enternecer com animais, foi capaz de um grau tão hediondo de crueldade contra quem estava completamente subjugado à aleatoriedade dos seus ditames. No fundo a desumanidade revelada pelos nazis não difere particularmente dos que hoje vêem a realidade através de números afixados em folhas de excel, sem se deterem no pequeno pormenor de eles virem a afetar a vida concreta de tanta gente.
É claro que a questão mais inquietante: como nos comportaríamos se fôssemos alemães nesses anos quarenta e nos víssemos designados para esse papel de guardas de campos de concentração. Desligaríamos os fusíveis da nossa moralidade e descansaríamos no argumento de nos limitarmos a cumprir ordens?
Quero crer que, ao contrário do que chegou a defender Hannah Arendt durante o julgamento de Adolf Eichmann, a banalidade do mal não está presente em todos nós. Fosse à custa da própria vida, fosse pelos perigos de uma vida de resistente, houve muito quem dissesse não por essa altura. Porque haverá sempre alguém que resiste, alguém que diz não!


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