sexta-feira, 19 de abril de 2013

LIVRO: «Resgatados» de David Dinis e Hugo Filipe Coelho


O regresso de José Sócrates ao debate político e a recomposição do governo de passos coelho depois da saída de miguel relvas, volta a  dar atualidade ao livro de David Dinis e de Hugo Filipe Coelho sobre os últimos dias do governo anterior. Porque, em todo o seu conteúdo, corrobora o relato da “narrativa” do primeiro-ministro de então sobre os dias turbulentos, que precederam o resgate do FMI, do BCE e da Comissão Europeia, e elucida - com a consistência dos factos! - a razão da progressiva evolução ascendente da dívida soberana.
O que Dinis e Hugo Coelho demonstram com o seu relato, por muitos classificado como um autêntico thriller, é que:
· Sócrates tentou evitar até à exaustão a vinda da troika e só o fez depois de torpemente traído por teixeira dos santos e abandonado pelos banqueiros com cujo apoio tinha contado para manter os juros da dívida em valores  controláveis;
· o acordo então estabelecido com angela merckel e com a comissão europeia era politicamente exequível como o veio a demonstrar a estratégia posterior de rajoy, muito embora fosse pouco crível que conseguisse ser implementado tendo em conta o contínuo trabalho de desgaste político então empreendido pela espúria coligação entre a direita portuguesa com os comunistas e com os bloquistas. Passados dois anos ainda estamos por perceber que vantagens terão conseguido estes dois partidos com essa coligação oportunista com a direita, já que não se podem dissociar da imagem de idiotas úteis, que terão então desempenhado!
· o erro de cálculo de Sócrates terá sido o de acreditar na possibilidade de contrariar uma dinâmica de conspiração dos mercados financeiros - através desse seu braço armado, que são as agências de rating - para precipitar Portugal para o mesmo destino, que a Grécia e a Irlanda, já que havia quem, em Berlim e em Bruxelas, congeminasse numa espécie de tampão para melhor defender as economias de maior dimensão (Espanha, Itália) cuja crise constituiria um problema bastante complicado de resolver.
· passos coelho e os seus colaboradores próximos adotaram, ao longo de todo o processo que conduziu ao PECIV, uma estratégia de erosão do governo, cientes de que o pote aproximava-se a olhos vistos. De entre esses colaboradores, Catroga faz o papel de garante da velha guarda laranja, muito embora se arrogasse de uma importância, que ninguém verdadeiramente lhe atribuía (patética a revelação do incómodo com que saiu da primeira reunião com a troika em que fora ouvido com a complacência dada aos velhos taralhoucos!) e moreira da silva, apresentado como um dos principais dirigentes do psd com ávida apetência para chegar o mais depressa possível ao governo;
Em todo o relato do sucedido entre finais de 2010 e maio de 2011, terá sido paulo portas o político com um comportamento ético mais conforme com a lealdade exigível aos atores políticos, mesmo que de áreas ideológicas divergentes. Algo que não sucedeu com a equipa das finanças do governo de José Sócrates, sentida amiúde pelos demais ministérios como um autêntico inimigo interior.
Transposto para a conjuntura atual o livro é esclarecedor quanto à impreparação da equipa de passos coelho para assumir responsabilidades em momento tão exigente, que exigiria visão e liderança, que este primeiro-ministro já demonstrou não ter. E a singularidade de se repetirem em dois governos sucessivos a sensação de termos nas finanças quem se assume como representantes dos interesses dos credores em vez de ali pugnar pelos que deveria efetivamente defender.

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