quinta-feira, 22 de novembro de 2012

FILME: «Deste Lado da Ressurreição», de Joaquim Sapinho



O surf nunca foi tema que me interessasse, apesar da minha fundamentada vocação marítima. Se admiro e respeito a coragem de quem enfrenta as grandes ondas, que rebentam nas nossas costas, sempre considerei tal desporto como divertimento de betinhos e bétinhas, ou de aspirantes a tal, vindos de camadas sociais menos abonadas. Por outro lado compreendo situações de grande dispêndio de adrenalina enquanto necessidade de sobrevivência (como o são as situações de guerra, por exemplo!), mas nunca como fútil réplica da roleta russa.
E, no entanto, foi há pouco estreado um filme sobre um surfista tentado pela vocação monástica, que me poderá levar a reconsiderar esse preambular desinteresse. Porque, na entrevista, dada a António Loja das Neves no «Expresso», o realizador Joaquim Sapinho explica como surgiu «Deste Lado da Ressurreição»: no cinema que faço é como se eu já não escolhesse, são os sítios que me escolhem a mim, não consigo lidar com a ideia de tomar decisões prévias para fazer o filme. Os sítios é que me atraem, sou testado por eles; o Guincho, o convento na serra de Sintra testam-me. E sobreviver a essa possessão é o trabalho do próprio filme.
Ora para essa abordagem de um espaço privilegiado como o é aquele aonde se passa o filme poderá revelar-se esteticamente muito interessante. Porque, acrescenta o realizador: as formas falam, os planos falam, os sítios falam, e o meu trabalho é ouvir, olhar e saber registar.
Escalpelizando esse testemunho depressa descobrimos que o tema é outro, o da alienação nas nossas sociedades continuamente caracterizadas por estímulos comunicacionais, que tornam a solidão uma preciosidade rara: a nossa sociedade, ao proibir a solidão, ao obrigar-nos a estarmos sempre em comunicação, impõe uma espécie de destruição da vida interior que leva a uma forma de estar com os outros que é falsa.
Incapazes de se conhecerem, de se interrogarem, os jovens não têm tempo para o serem, depressa se confrontando com as questões tendencialmente apropriadas para quem passou por tal fase da vida e pode encarar as grandes questões metafísicas.
Acho extraordinário que a sociedade de consumo tenha colocado as pessoas das novas gerações nuas, diante do nada. Já não é necessário chegar a uma idade avançada para o confronto com a morte. Os adolescentes de hoje estão já diante da morte, não há nenhum sentido nesta sociedade de consumo. É como se tais perguntas fossem também postas demasiado cedo em relação à capacidade de se responder.
Parece-me, porém, que Sapinho pareça esquecer quanto, ao longo da História, a humanidade tem sido confrontada com a realidade permanente de guerras terríveis e em que morreram fisicamente ou animicamente quem para elas foi empurrado mesmo ainda de rosto imberbe.

Sem comentários:

Enviar um comentário