quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Anda para aí muito nervosismo nos nossos comentadores políticos a propósito do clima de guerrilha aparente entre o primeiro-ministro e o presidente da República.
E, embora ninguém lhes exija tanto, esses comentadores tomam posição, normalmente defendendo o inquilino de Belém contra o de S. Bento. E logo são secundados pelos partidos da oposição, que do CDS ao Bloco de Esquerda, condenam José Sócrates como se cometesse crime de lesa majestade quando, afinal, tem atirado tantas pedras para o telhado do vizinho quantas as que dele tem recebido.
Como ainda agora dizia este no parlamento ninguém está isento de crítica. E isso é bem verdade quando Cavaco Silva mantém Fernando Lima em Belém depois de, comprovadamente, ter sido ele o autor da cabala das escutas do Verão passado. Ou quando toma objectivamente posição contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao dizer-se muito mais preocupado com outros problemas do país.
Ao contrário do que defendem alguns dos opinadores oficiais dos nossos media, se existe a sensação do final de regime não é propriamente do de raiz governamental. O que já se detecta é o enterro anunciado do cavaquismo, quer pela intervenção política do seu criador, quer pela falência ideológica dos seus seguidores no maior partido de oposição, ao demonstrarem a incapacidade para olharem a realidade dos novos tempos e arranjarem uma ideia, uma única que seja, capaz de se comprovar eficiente para em vez de por eles nos deixarmos arrastar, encontrarmos forma de os condicionar para o que de mais positivo representarem para o interesse dos portugueses…

Rasteiras

Será que Fernando Lima continua a fazer das suas em Belém, depois de ter sido transferido de serviço devido ao seu papel de criador do caso das escutas?
O episódio do suposto mal-estar na relação entre a Presidência da República e o primeiro-ministro teve novamente epicentro na sua Casa Civil: nos jornais, que anunciaram o caso ela era identificada como a fonte de tal informação. Que justificou a reacção destemperada do gabinete de José Sócrates!
Ora a questão de princípio é basicamente esta: problemas de agenda todos os responsáveis políticos os têm. Normalmente os compromissos são cumpridos, mas vezes há em que os imponderáveis justificam inesperados contratempos.
Fazer de uma destas excepções uma nova oportunidade de guerrilha em relação ao primeiro-ministro, apressando-se a fornecer títulos sensacionalistas para os jornais, diz tudo sobre um Presidente que perdeu completamente a máscara de imparcialidade com que se comprometeu no início do seu mandato.
Que, ademais, a oposição  - mesmo a situada à esquerda do PS - se junte em bloco para se solidarizar com Cavaco Silva, revela bem a insustentável solidão em que José Sócrates se vai esforçando para dar algum futuro a um país, que não merece a atitude permanente de boicote de todos os partidos da oposição...

sábado, 19 de dezembro de 2009

Trogloditas

É algo que constitui uma espécie de lei natural do género humano: toda a evolução social encontra pela frente uma contestação militante de gente, que sabe já ter perdido as guerras travadas em prol dos seus valores, mas persiste em adiar o mais possível a sua definitiva derrota.
Aconteceu assim com os esclavagistas. Repetiu-se com os opositores ao direito do voto das mulheres. E foi sempre assim até ao reconhecimento do direito ao aborto ou, actualmente, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Mudam-se os tempos, mas nãos e mudam as vontades. Por muito que se procure dar mais direitos a quem ainda os não tem sem privar os de mais ninguém, há gente moralista com vocação para querer obrigar os demais a viverem de acordo com as suas ilusórias concepções naquilo que constitui um resquício de uma mentalidade totalitária.

Os que querem agora referendos para evitar casamentos entre pessoas do mesmo sexo são os que gostariam de viver num mundo em que a família resultasse da união entre um homem e uma mulher virgens até à noite da cerimónia e dispostos a só fornicarem com objectivos de procriação. Contraceptivos e divórcios seriam liminarmente proibidos. E as pobres crianças cresceriam em colégios religiosos aonde o catecismo seria mais importante que a biologia.
Não existiria melhor definição de uma mentalidade fundamentalista ao nível de um talibã!

As indignidades do capitalismo

Lamentamos, que o capitalismo puro e duro continue pujante um pouco por todo o lado e das formas mais terríveis. É evidente que vai crescendo a condenação moral das suas mais violentas manifestações, mas elas diversificam-se com tanto engenho quanto potencial de enriquecimento para tanta gente sem escrúpulos.
Vem isto a respeito de um documentário visto na televisão a respeito do turismo médico. Se começamos por considerar relativamente tolerável que norte-americanas relativamente abonadas se desloquem à Tailândia para conseguirem os seus implantes mamários e até podemos reconhecer o facto de todas as partes poderem lucrar com o negócio das barrigas de aluguer nos bairros de Bombaim, que dizer dos bairros da lata de Manila aonde uma percentagem considerável dos homens já vendeu um rim?
Se a sociedade actual já rejeita o tráfico de escravos ainda não se mostra suficientemente indignada com o dos órgãos de desempregados do Terceiro Mundo para benefício exclusivo dos habitantes mais abonados dos países ricos!
A luta contra o capitalismo também passa pela que contrarie estas suas grotescas manifestações...

domingo, 13 de dezembro de 2009

Anacronismos

Um dos mais contundentes argumentos contra os detractores dos grandes investimentos públicos foi dado por Pedro Gonçalves, presidente da Soares da Costa, na cerimónia de adjudicação da linha do TGV entre o Poceirão e Caia. Segundo esse gestor a empresa irá ganhar assim competências que a ajudarão depois «a entrar em mercados aonde a ideia da alta velocidade começa a ganhar terreno» («Público», 13/12/2009).
Numa altura em que a solução para as grandes empresas nacionais reside na internacionalização eis que só projectos estruturantes como este o facultam garantindo que elas possam dar referências concretas da sua experiência em áreas de negócio, que crescerão exponencialmente no futuro.
Que o próprio Presidente da República tenha tido comentário infeliz no próprio dia da cerimónia só demonstra como até nas instituições o país continua dividido: enquanto uns querem pensar com largueza de horizontes perspectivando futuros melhores, há os que continuam a lembrar O’Neill quando falava de um país no diminutivo por pretenderem comboiozinhos, estradinhas e PMEzinhas…
Não admira que na mesma edição do jornal, o insuspeito Vasco Pulido Valente constate que o país se prepara para dispensar o PSD «como um anacronismo sem utilidade».

John Stuart Mill

É filósofo político, que merece ser muito mais conhecido: John Stuart Mill viveu entre 1806 e 1873 e foi o principal teórico do utilitarismo, assinando propostas inovadoras a nível da economia política e da emancipação feminina.
Desde criança que se revelou espantosa personalidade: ainda não era nascido e já o pai (James Mill), o padrinho (Jeremy Bentham) e um amigo destes (David Ricardo) congeminavam que melhor educação proporcionar-lhe para que se viesse a tornar num ser de excepção. Aos 3 anos já estava a aprender grego clássico e aos 8 o latim. E em vez de brinquedos tinha ao dispor uma biblioteca recheada de textos clássicos.
Não admira que se tornasse no ideólogo mais influente do Reino Unido entre as décadas 50 e 70 do século XIX, para o que terá contribuído igualmente o casamento inspirador com Harriet Taylor em 1851.
Mas Stuart Mill não seria apenas um intelectual devotado ao estudo: escrevendo em diversos jornais exerceu uma influência significativa sobre a opinião pública e sobre o Parlamento.
No seu pensamento político está a questão de se encontrar forma para garantir a máxima participação dos cidadãos - conceito essencial da democracia - com as diferenças cada vez mais alargadas das competências para o efeito?
 Uma questão que continua a ser da máxima actualidade.

Ódios mesquinhos

Um estranho fenómeno político está a passar-se em Portugal e que o antigo ministro Mário Lino muito bem escalpelizou em recente entrevista a um jornal económico: José Sócrates tem qualidades ímpares de entre quantos estão em condições de se apresentarem ao eleitorado com a intenção de os governar. É determinado, atento às mudanças de conjuntura e tem a visão necessária para, sentando-se qual Newton ao ombro de gigantes, ver mais longe e aí divisar qual a melhor direcção a tomar.
Ao invés os políticos da oposição vivem do ódio que tal personalidade lhes merece. Incapazes de proporem uma ideia consistente para melhorar a condição económico-financeira do país, concertam-se para aumentar a despesa do Estado enquanto verberam o Governo por a não reduzir, esperançados ao mesmo tempo em lançar tanta calúnia ao primeiro-ministro, que se cumpra a regra de Goebbels sobre o efeito de uma mentira repetida mil vezes.
Um bom primeiro-ministro deveria merecer uma oposição equivalente, que acrescentasse ideias e propostas construtivas aos seus projectos. Mas, por ora, oposição continua a ser sinónimo de bota-abaixo a qualquer preço.

Um político que sabe para onde vai, outros que não fazem ideia...

Correctíssima a afirmação de José Carlos Vasconcelos na última edição da revista «Visão», quando diz que «com a peste à porta os políticos, os partidos, se não discutem o sexo dos anjos parecem preocupar-se menos em erradicá-la do que em responsabilizar os outros pela epidemia e cada um dar a ideia de que só ele tem o remédio». Com uma diferença: enquanto o primeiro-ministro e o Governo têm uma linha estratégica, que parece ir dar a algum lado, os políticos a Oposição multiplicam-se em solilóquios inconsequentes em que não sobra ponta de proposta viável para ser aplicada. À esquerda do Governo ainda se sonha com amanhãs que cantem, com fatos-macacos de ganga azul a avançarem para Palácios de Inverno envoltos em fatas morganas. À direita procuram-se os tais empreendedores de pequenas e médias empresas a quem se querem dar subsídios para, a exemplo de tantos pretéritos agricultores, investirem-nos em contas offshore e em jipes.
Falta muito para que José Sócrates receba nova e merecida maioria absoluta, imprescindível para pôr o País a funcionar?

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sinais Inquietantes

Por estes dias os jornais europeus andaram a abordar o fenómeno da islamofobia na Europa. Sobretudo depois do referendo suíço, que definiu a proibição de minaretes nas mesquitas aí existentes ou a construir.
As abordagens têm sido suficientemente abrangentes para evocar o célebre poema do Brecht a respeito de primeiro terem vindo buscar os comunistas, depois os sindicalistas e sucessivamente os sociais-democratas, os católicos e os judeus, sem que o narrador tugisse. Até chegar a sua própria vez.
Ou para se alargar a antigos deportados judeus, que referem a pequena alteração de ostracismo por parte dos suíços, primeiro para os semitas judeus nos anos 30 do século passado, e agora para os semitas árabes.
Na maioria das abordagens (excluam-se por decoro os entusiasmos criminosos de Le Pen e gentalha semelhante!) constata-se o perigo de ver os povos europeus derivarem para a negação dos valores e dos princípios em que têm baseado a superioridade civilizacional das suas sociedades.
De qualquer forma o referendo suíço vem reiterar algo que é de há muito conhecido: as ditaduras também saber recorrer aos instrumentos democráticos para fazerem prevalecer os seus interesses. O que, por outras palavras, quererá dizer que nem sempre ser maioria equivale a ter razão. Daí as vantagens de defender sempre as liberdades essenciais das minorias. O que equivale a dizer que muito embora o fundamentalismo islâmico seja outra forma de fascismo, pretender generalizar de forma primária a identificação de muçulmanos com terroristas é o caminho mais curto para se caucionarem novas catástrofes.

Sinais

Por estes dias os jornais europeus andaram a abordar o fenómeno da islamofobia na Europa. Sobretudo depois do referendo suíço, que definiu a proibição de minaretes nas mesquitas aí existentes ou a construir.
As abordagens têm sido suficientemente abrangentes para evocar o célebre poema do Brecht a respeito de primeiro terem vindo buscar os comunistas, depois os sindicalistas e sucessivamente os sociais-democratas, os católicos e os judeus, sem que o narrador tugisse. Até chegar a sua própria vez.
Ou para se alargar a antigos deportados judeus, que referem a pequena alteração de ostracismo por parte dos suíços, primeiro para os semitas judeus nos anos 30 do século passado, e agora para os semitas árabes.
Na maioria das abordagens (excluam-se por decoro os entusiasmos criminosos de Le Pen e gentalha semelhante!) constata-se o perigo de ver os povos europeus derivarem para a negação dos valores e dos princípios em que têm baseado a superioridade civilizacional das suas sociedades.
De qualquer forma o referendo suíço vem reiterar algo que é de há muito conhecido: as ditaduras também saber recorrer aos instrumentos democráticos para fazerem prevalecer os seus interesses. O que, por outras palavras, quererá dizer que nem sempre ser maioria equivale a ter razão. Daí as vantagens de defender sempre as liberdades essenciais das minorias. O que equivale a dizer que muito embora o fundamentalismo islâmico seja outra forma de fascismo, pretender generalizar de forma primária a identificação de muçulmanos com terroristas é o caminho mais curto para se caucionarem novas catástrofes.

domingo, 6 de dezembro de 2009

A desonestidade intelectual do PSD

O PSD parece querer dar razão ao seu fundador, que vê na sua estratégia actual o caminho certo para uma irreversível decadência. Trazer para a praça pública a contínua tese da suspeição a respeito das políticas deste ou do governo anterior sem adiantar medidas construtivas, que se propusesse executar em alternativa só tenderá a reforçar aquilo que a maioria dos eleitores portugueses já concluiu: o PSD tornou-se num daqueles casos em que fala, fala, mas não faz nada de concretamente positivo para o país e para a generalidade dos portugueses.
Vem isto a propósito do caso dos computadores Magalhães.
Ao sentir que o caso Freeport já deu o que tinha a dar e que o caso Face Oculta não conseguirá inculpar Armando Vara ou o primeiro-ministro, os estrategas laranja decidiram agora retomar algo que deveria merecer-lhes reparo. Senão vejamos: quando o Governo propõe estágios para os recém-licenciados, vêm dizer que devem é apoiar as empresas. Mas se se apoia uma empresa nacional, criando novos postos de trabalho e garantindo a centenas de milhares de crianças o seu primeiro contacto com a informática, aqui d’el-rei que deveriam ter lançado um concurso público. Independentemente de, assim, adiarem a concretização dessa notável medida estruturante para o futuro do país e de darem muito provavelmente o negócio a uma empresa multinacional, que concorreria e apresentaria decerto melhores condições quanto mais não fosse para eliminar a concorrência nacional.
É essa  desonestidade intelectual, que mais se destaca no actual PSD. E se aos pequenos partidos, que não querem nem podem chegar às responsabilidades da governação se pode tolerar a contínua tentação da maledicência de quem procura manter o leme na difícil conjuntura actual, ao principal partido de oposição exige-se muito mais: pelo menos, que nos diga o que, caso estivesse no governo, faria de diferente e de credivelmente vantajoso em relação ao que se faz actualmente.
Porque, nesta altura, o que cada vez mais se constata é a determinação do primeiro-ministro para, dentro do possível, garantir o crescimento do Produto Interno Bruto e criar as condições para a recuperação de tantos empregos, entretanto perdidos.

A desonestidade intelectual do PSD

O PSD parece querer dar razão ao seu fundador, que vê na sua estratégia actual o caminho certo para uma irreversível decadência. Trazer para a praça pública a contínua tese da suspeição a respeito das políticas deste ou do governo anterior sem adiantar medidas construtivas, que se propusesse executar em alternativa só tenderá a reforçar aquilo que a maioria dos eleitores portugueses já concluiu: o PSD tornou-se num daqueles casos em que fala, fala, mas não faz nada de concretamente positivo para o país e para a generalidade dos portugueses.
Vem isto a propósito do caso dos computadores Magalhães.

Ao sentir que o caso Freeport já deu o que tinha a dar e que o caso Face Oculta não conseguirá inculpar Armando Vara ou o primeiro-ministro, os estrategas laranja decidiram agora retomar algo que deveria merecer-lhes reparo. Senão vejamos: quando o Governo propõe estágios para os recém-licenciados, vêm dizer que devem é apoiar as empresas. Mas se se apoia uma empresa nacional, criando novos postos de trabalho e garantindo a centenas de milhares de crianças o seu primeiro contacto com a informática, aqui d’el-rei que deveriam ter lançado um concurso público. Independentemente de, assim, adiarem a concretização dessa notável medida estruturante para o futuro do país e de darem muito provavelmente o negócio a uma empresa multinacional, que concorreria e apresentaria decerto melhores condições quanto mais não fosse para eliminar a concorrência nacional.
É essa  desonestidade intelectual, que mais se destaca no actual PSD. E se aos pequenos partidos, que não querem nem podem chegar às responsabilidades da governação se pode tolerar a contínua tentação da maledicência de quem procura manter o leme na difícil conjuntura actual, ao principal partido de oposição exige-se muito mais: pelo menos, que nos diga o que, caso estivesse no governo, faria de diferente e de credivelmente vantajoso em relação ao que se faz actualmente.
Porque, nesta altura, o que cada vez mais se constata é a determinação do primeiro-ministro para, dentro do possível, garantir o crescimento do Produto Interno Bruto e criar as condições para a recuperação de tantos empregos, entretanto perdidos.

Afirma Assis

Em entrevista ao «Diário de Notícias» o líder parlamentar do Partido Socialista, Francisco Assis, considera que a oposição está a fazer a demonstração de que tem uma força maior no Parlamento, mesmo que seja mais destrutiva e no sentido de dissolver ou de impedir do que propriamente de construir, propor ou apresentar pela positiva.(…)
Para ele vivemos numa democracia de opinião, com muita exposição, emotividade e superficialidade, onde se tende a fazer considerações sobre tudo. Alguns silêncios também são um valor na vida política, pouco valorizados hoje em dia.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A contestação a Cuba

A notícia, já com duas semanas, surgiu no insuspeito «Público», que tanto tem sido veículo de divulgador de todos os argumentos críticos a respeito do regime castrista:
«Cerca de 400 membros do Congresso dos EUA receberam à volta de 11 milhões de dólares (cerca de 7,4 milhões de euros) de um grupo de apoio às sanções ao Governo cubano nos últimos cinco anos, segundo um relatório do grupo Public Campaign, que defende a reforma das regras de financiamento na política norte-americana.
O relatório, divulgado em vésperas da discussão das restrições nas viagens a Cuba no Congresso, mostra que alguns congressistas mudaram as suas posições em relação a questões relacionadas com Cuba meses depois de receberem verbas do US-Cuba Democracy Public Action Committee (PAC).»
Numa altura em que os portugueses têm sido bombardeados com o modelo de corrupção assente no pagamento de determinadas verbas para exequibilizar certos negócios, muitos norte-americanos consideram normal que os seus eleitos no Senado ou na Câmara dos Representantes aluguem as suas consciências a quem mais lhes pagar.
Como se diz nessa notícia o que os políticos de tais órgãos de poder defendem depende da quantidade de dólares, que vierem a rechear a sua conta bancária.
É claro que vestem, depois, tais posições de bonitas palavras relacionadas com democracia, liberdade de expressão ou direitos humanos. Como, se a esse respeito, os norte-americanos tivessem lições a dar às outras nações do mundo.

China: o filho único

Na ARTE vejo uma reportagem muito parcial sobre a política do segundo filho na China. Ao contrário do que eu próprio constatei o realizador encontrou uma maioria de casais contestatários a indignarem-se com a multa para quem prevarica nesse princípio. Fenómeno que favorece a corrupção dos funcionários, o envelhecimento da população, a clandestinidade de muitas crianças a viverem à margem do sistema e ao aborto de meninas. Está em causa a sobreposição do interesse particular ao interesse colectivo o que, pelo menos enquanto lá estive, nunca constatei…

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Uma geração perdida? Ou mais?


Interessante, como o quase sempre o são os seus trabalhos, a reportagem de Louis Theroux na cidade norte-americana de Fresno a seguir diversas vítimas da dependência das metanfetaminas, droga barata e fácil de produzir e de efeitos devastadores. Porque cria um estado de bem estar em quem a consome e ao qual se quer regressar o mais obsessivamente possível. Independentemente das consequências como se vê em casos de mulheres, que perderam os respectivos filhos para as Protecções de Menores, afinal a menos má das soluções, pois os que ficam com os progenitores acabam, eles próprios, a repetirem o ciclo de queda no abismo de que nunca se erguerão.
O que está verdadeiramente em causa é uma geração irremediavelmente perdida em vias de passar o testemunho a outra, que não consegue reencontrar-se…

domingo, 22 de novembro de 2009

Manifestações criptofascistas

Como não estar de acordo com Ferreira Fernandes quando, na crónica de hoje do Diário de Notícias, põe em causa os jornalistas que publicam sem sentido crítico o que alguém lhes vai soprando do lado da investigação?
Não tenhamos dúvidas: afinal não há nenhuma gravação de Armando Vara a solicitar a Manuel Godinho os dez mil euros, que surgiram em grandes parangonas e como resultado de presumíveis microfones de escutas direccionais utilizados pelos investigadores.
No entanto a lama aí fica: agora que surgiu nos grandes títulos de jornais, quem irá descrer desse «facto» afinal inexistente nos documentos da acusação. Um dia destes, se o vice-presidente do BCP sair ilibado das presentes suspeitas, quem lhe compensará os danos causados á sua reputação?
Está a ser trágica a forma como a investigação policial e/ou judicial está a condicionar a vontade política dos portugueses, utilizando a manipulação jornalística como veículo preferencial.
A liberdade de imprensa é uma conquista fundamental da democracia, mas há quem dela se utilize com os piores propósitos. Já estão á espreita os Berlusconis que, à pala do descrédito lançado sobre todos os políticos, se preparam para fazer da democracia uma verdadeira caricatura. E os jornalistas, que se vão deixando manipular, esquecem que, então, a própria liberdade de imprensa se tornará numa mera aparência sem substância.

LOBOS À SOLTA!

Os lobos continuam a uivar na serra. Ferozes, mostram os dentes e fixam-se na vítima, que até agora lhes tem escapado. Por quanto tempo?
A usura vai fazendo mossa no cabelo e na expressão de quem se tem mostrado determinado a cumprir a sua visão para a comunidade, mas não cessa de estar atento a quem lhe anda sucessivamente a querer morder as canelas.
Por quanto tempo irá aguentar? E o que será de nós, quando se lhe seguir um qualquer arrivista sem qualquer ideia eficaz para o país?

domingo, 15 de novembro de 2009

Feitiços e lamentáveis feiticeiros

Terá sido uma das mais amargas constatações do recém desaparecido Claude Lévi Strauss: a facilidade com que o oprimido se torna opressor, o exterminado se torna exterminador, o colonizado em colonizador.
Em dois documentários diferentes constata-se isso mesmo: num deles os australianos de origem europeia votam um ódio visceral aos que nasceram no mesmo espaço geográfico, mas de pais oriundos de países árabes. Ser muçulmano e ostentar uma tez mais escura, equivale a graves problemas num país cujas origens são, como se sabe, as mais contrárias a qualquer fundamentação de atavismos baseados na religião ou na cor da pele.
É claro que o proselitismo islamista justifica alguns receios, sobretudo, se traduzido em algo como o atentado da semana passada numa base americana pelo qual um psiquiatra de origem palestiniana assassinou a sangue frio uns quantos colegas. Mas a melhor atitude para com os fundamentalismos não deixa de ser a de contrapor a prática da Declaração Universal dos Direitos Humanos e eliminar as razões fundamentais do despeito desesperado dos terroristas: a miséria e a falta de uma educação orientada para a tolerância de quem é diferente.
O outro documentário a suscitar idênticas apreensões tem a ver com a África do Sul, aonde a população branca vive em situação de sitiada pela imensa maioria a quem no apartheid segregava e agora a ataca violentamente através de gangs de desesperados para quem a promessa dos amanhãs que cantam não travou a necessidade de sobreviverem no imediato, já que o desemprego e a miséria continuam a lavrar nas suas townships.
Num ou noutro desses países estamos muito distantes das expectativas de desenvolvimento harmonioso, que chegaram a alimentar. A luta de classes está aguda por tais lados e o racismo é apenas uma das suas vertentes mais odiosas...

domingo, 1 de novembro de 2009

A NOVA MISSÃO DA ESQUERDA

A frase  é de Victor Hugo e vem muito a propósito deste tempo em que, em vias de ultrapassar-se nova crise, o capitalismo ainda encontra forma de se manter por mais algum tempo, mas já se prefigura a necessidade de algo de completamente novo no horizonte: «Nada há de mais poderoso do que uma ideia cujo momento chegou»
Pode-se porventura pensar que o comunismo não singrou enquanto ideologia, porquanto era ideia de um tempo, que ainda não chegou. E assim terão fracassado na antiga União Soviética, na China, nos antigos países de leste ou em Cuba essas ideias de igualdade e de justiça. Pervertendo-se o seu conceito com uma aplicação, que só desmereceu a generosidade do que, á partida, se pretendia.
Quando são os próprios norte-americanos, ao mais alto nível, a compreender o abismo para que se tende à conta do défice progressivamente maior do orçamento federal, é caso para se considerar a possibilidade de se avizinharem graves tempestades no céu se vai acinzentando sobre as nossas cabeças.
Embora muitos desempregados estejam sem soluções, o sistema de mercado dá provas de alguma revitalização. Até quando?
Uma esquerda responsável deveria começar a preparar-se para mudanças urgentes, para as implementar com os menores custos sociais possíveis.
Recuperando valores e ideais, adaptando-os às circunstâncias do futuro próximo.

RECOMEÇO DO «PÚBLICO»

Confesso alguma expectativa em relação à nova direcção do «Público», que começou hoje a dar sinais de mudança no jornal, que foi referência de idoneidade e de respeito deontológico de princípios muito rigorosos durante os primeiros anos, e depois foi perdendo essa condição devido às posições extremadas de quem o liderava e o transformava em veículo de propaganda do que ditavam os neoconservadores norte-americanos.
Quando denota a consciência da percepção pública do posicionamento ideológico à direita do jornal, que importa corrigir, e aposta na isenção, na investigação e na profundidade, o editorial deste recomeço abre esperanças a quem já deixara de respeitar o que nele se dizia e só o ia acompanhando com a desconfiança de auscultar sobre qual seria a sua agenda escondida.
Afinal talvez não esteja definitivamente perdido o projecto de ter um jornal efectivamente empenhado em informar os seus leitores dotando-os das ferramentas necessárias para poderem formar opinião sem a tentarem manipular num sentido a contracorrente dos próprios ventos da História.
Por agora fica o benefício da dúvida!


sábado, 31 de outubro de 2009

E A TAL PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA?

Até pode suceder que José Penedos e Armando Vara sejam, efectivamente, corruptos e a operação «Face Oculta» fundamente com substância as suspeitas sobre eles lançadas pela investigação criminal. Mas, mais uma vez, uma matéria que deveria estar acolitada no segredo de justiça volta a cair na praça pública, sem que ninguém se escandalize com o verdadeiro passe-vite em que se converteu a ligação entre a Judiciária ou a Procuradoria Geral da República e a comunicação social.
Em vez de julgados na Justiça, os suspeitos são liminarmente condenados pela opinião pública, sem direito a defesa ou a contraditório.
Há uns anos, um homem bom, que deixara de ser primeiro-ministro da França suicidoou-se, quando não suportou ver o seu nome enlameado. Agora, como não reconhecer razão ao presidente da REN, quando ele se indigna ao «denunciar o despautério a que chegámos em termos de violação do segredo da justiça» e ao considerar que « o país perdeu o sentido do equilíbrio das instituições e deixou de respeitar os direitos dos cidadãos.»

CÁ SE FAZEM, CÁ SE PAGAM


Uma das boas notícias da semana foi a progressiva redução da possibilidade de Tony Blair se converter no primeiro Presidente da Europa. Mesmo dando de barato, que o cargo será ocupado por um político de direita…
Porque, de facto, entre Blair e eles, que diferença existe?
Blair era um suposto socialista, que não enjeitou prosseguir com as políticas conservadoras de Margaret Thatcher e que serviu de cúmplice à criminosa agressão ao Iraque por parte de George W. Bush. Um currículo que o deveria colocar no banco dos réus do Tribunal Internacional de Haia se aí se julgassem, efectivamente, os crimes contra a Humanidade.
Já é tenebroso contar com Durão Barroso à frente da Comissão Europeia. Não é por ascender a lugares políticos influentes, que um crápula deixa de o ser! Mas contar com Blair a liderar o continente seria demasiado!
Que outra condenação não tenha, já será merecida a irrelevância, que o antigo inquilino do 10 de Downing Street, terá no futuro dos cidadãos europeus.

domingo, 25 de outubro de 2009

Oportunismo Patronal

Não é que seja surpreendente a atitude dos srs das Confederações Patronais, que se apressam a defender aumentos nulos de salários para o próximo ano.
Já Vítor Constâncio deveria ter uma maior consciência social em honra do seu passado político: a frieza dos indicadores económicos não justifica a visão estreitamente tecnocrática que tem assumido nas suas funções no Banco de Portugal.
Se é verdadeira a ilação de uma recuperação, mesmo que lenta, da economia capitalista, se ela assenta na circulação da moeda e na dinamização do consumo enquanto factor preponderante para a criação da tal procura, que fundamenta a produtividade das fábricas e dos serviços, então muito mal vão os patrões, que depois de décadas de notória incapacidade para justificarem a subsistência de um efectivo sistema de economia de mercado no país, ainda se esforçam por transferirem para os mais pobres os efeitos de uma crise, que começaram por ser eles a fomentar.
Como questionava Karl Valentin, não se pode exterminá-los?

Uma Virgem Ofendida

Está no auge a polémica entre José Saramago e a Igreja Católica a propósito da figura divina e do papel da Bíblia enquanto manual de maus costumes.
Há quem defenda que as tropelias católicas já ficaram cingidas ao passado inquisitorial em que se queimavam pessoas por delito de opinião ou por judaísmo.
Não será tanto assim: foi à pala da Igreja Católica e com a sua empenhada conivência, que Franco espalhou sangue pelo solo espanhol.
Foi com o total alheamento do Vaticano, que o Holocausto se produziu.
Foi com todo o apoio da maioria das autoridades religiosas dos respectivos países, que as ditaduras latino-americanas torturaram e assassinaram milhares de opositores.
E, como está a ser público por estes dias na Irlanda, foram católicos quem cometeram milhares de abusos sobre crianças nas escolas industriais irlandesas no século XX, como agora foi divulgado no Relatório Ryan.
Com tão sinistra história, como pode a Igreja condicionar a opinião alheia às suas práticas. Mais valeria, que se dedicasse a penitenciar-se pelos muitos pecados, que tem assumido ao longo da sua lamentável existência!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O confronto entre o novo e o velho

Que toda a acção gera uma forte reacção não duvidamos, mas a participação de centenas de milhares de pessoas na manifestação contra a nova legislação antiaborto de Rodriguez Zapatero ou a forma como as rádios e televisões norte-americanas estão a incendiar sectores da opinião pública contra Barack Obama é bem demonstrativa de como o passado não cede espaço ao futuro sem luta, sem confronto sério.
Era Mao quem dizia que a Revolução não é um convite para jantar. Pois não! E as forças progressistas esquecem-se amiúde de se armarem devidamente contra a fúria reaccionária de quem lhe pretende semear obstáculos no percurso para um mundo mais justo.
Por isso, perante os milhares de contestatários que se fazem ouvir em Madrid ou nos States, deveriam erguer-se as vozes de milhões, que apoiam as políticas mais avançadas dos seus dirigentes.

UMA EUROPA ATOLEIMADA

O texto de Timothy Garton Ash no jornal «Guardian» sobre uma Europa acantonada nos seus paradigmas qual gaulês da aldeia de Astérix, e incapaz de sair das suas fronteiras para conseguir impor os seus valores e produtos, pode justificar caminhos ínvios. Por exemplo acentuar a importância de quem continua a acreditar na possibilidade de paraísos excelsos a partir do momento em que o Estado recue e o patronato assuma a iniciativa de «criar riqueza» para si.

Estamos a chegar a tempos perigosos para uma Europa, aonde se calaram as vozes progressistas e ganharam estatuto de líderes quem já revelara toda a sua mediocridade no lamentável episódio da agressão ao Iraque. Ver um Durão Barroso a presidir à Comissão Europeia ou um Blair a ser empossado como seu primeiro presidente só pode indignar quem os viu como meros fantoches da estratégia imperialista de Dick Cheney e de Donald Rumfeld.
Alegarão tais sumidades que se sentem legitimados pela força dos votos democráticos. Mas a experiência já demonstrou que, pela via eleitoral, os farsantes podem aceder ao poder, sejam eles Berlusconi ou Alberto João Jardim, Sarkozy ou Isaltino.
O que os actuais líderes europeus não têm é a visão de futuro, que as circunstâncias deveriam impor com naturalidade. A que preconizasse rupturas efectivas com a utilização irracional dos recursos energéticos e pugnasse por uma humanização progressiva na relação entre os homens. Assente no princípio básico de, independentemente, da cor ou da religião, todos termos a ganhar se se cativarem os esforços colectivos para objectivos bem palpáveis em benefícios por todos distribuíveis. É da união entre cidadãos de todas as latitudes, que se poderão conseguir alterações profundas na forma como enfrentaremos as ameaças iminentes.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Oráculos apressados

Há uns dias atrás Mário Soares expressou a sua admiração por José Sócrates argumentando o quanto ele aprendeu intensamente durante estes quatro anos de governo. Mesmo expressando algumas divergências - o primeiro-ministro situar-se-ia à direita do seu pensamento político - o fundador do Partido Socialista não deixou de enaltecer a forma como ele assumiu os riscos de uma governação complicada em função da tremenda crise por que passou o capitalismo ocidental.

É talvez essa sapiência, que leva Sócrates a revelar-se muito hábil ao convocar para São Bento todos os partidos com assento parlamentar para lhes ouvir as perspectivas para os próximos anos.
Para além de cumprir com a imagem dialogante, que vem afinando desde a derrota nas eleições europeias, Sócrates começa a endossar o ónus das futuras crises políticas para esses adversários só capazes de se entenderem no seu desentendimento com os socialistas.
E já se sabe o que redunda normalmente esse tipo de situações: o reforço de quem aposta na governabilidade responsável e a condenação eleitoral de quem se limita a dizer mal dos que fazem os possíveis por alimentar os sonhos colectivos de uma bem mais feliz existência.
Quem se apressa a prever um final próximo para a liderança nacional de Sócrates, é capaz de se vir a sentir bem defraudado...

domingo, 11 de outubro de 2009

UM NOBEL BEM MERECIDO


Já se passaram três dias desde o anúncio do Comité Nobel para o Prémio deste ano referente à Paz e a poeira está longe de assentar. Há quem se confesse entusiasmado com a consagração de Barack Obama (Mário Soares, Fidel Castro), há quem manfeste o seu claro desacordo (Vaticano, talibãs afegãos e republicanos norte-americanos), mas do que não sobra qualquer dúvida é sobre o carácter simbólico de tal escolha.
Pode-se, de facto, constatar que, embora tenha aberto novos caminhos de resolução para muitos conflitos e problemas até então bloqueados, Barack Obama ainda não conseguiu resolver nenhum. Mas que o vem tentando, ninguém duvida. No entanto algo de muito palpável já conseguiu: mudar o clima de tensão internacional em relação à época em que o anterior inquilino da Casa Branca ainda aí vegetava. E só isso já é merecedor de um prémio, que tem na origem esse reconhecimento de contributos concretos para um mundo mais pacificado.

sábado, 3 de outubro de 2009

FAZER HUMOR, NÃO A GUERRA!

Se há formas de humor muito bem sucedidas, as normalmente associadas aos judeus são das mais brilhantes. Basta pensarmos em Woody Allen para constatarmos como se pode apresentar como uma cultura aberta, capaz de se pôr em causa no que tem de mais profundo.

O exemplo dos dois judeus - um rabi e outro cantor da sinagoga - que se escandalizam por se verem imitados por outro crente quando se atiram para o chão e se colocam na posição de se humilharem perante o seu deus por serem «nada« (que desaforo o do outro por também se lhes querer comparar a eles no seu total despojamento perante Deus), dá razão a uma certa tendência genética para se sentirem superiores, mesmo quando parecem demonstrar a sua pequenez.
Que essa arrogância genética se reflicta no enorme drama humano, que ensanguenta e agride as consciências no Médio Oriente nada tem de anedótico.
Razão para desejar que, quem é hoje poder em Telavive, saia do sério e adopte a lógica do humor da sua cultura. Talvez compreenda, então, o quão criminosa é a forma como está a hipotecar todo o futuro do seu povo na região mediante políticas (de que os colonatos são o melhor paradigma!) inibidoras de qualquer plataforma de negociação justa entre as partes em conflito.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

NÃO HÁ SÓ PALHAÇOS NO ESPAÇO!

Muito embora se alinhem políticos de direita e de esquerda para comparecerem no programa, pode-se considerar que são os primeiros a servirem de bombos da festa às piadas dos gatos fedorentos. E, nestes últimos dias, tem sido Cavaco Silva um dos principais alvos da sátira.
Convenhamos que ele se pôs a jeito. É certo que Ana Gomes deu dele a mesma perspectiva ao propor que tenhamos paciência, tão patética foi a sua figura nestes últimos dias. Ao ponto de Camilo Lourenço questionar o que se passará com a sua extravagante conduta, ao analisá-la na sua crónica diária no Jornal de Negócios.
Mas ao sugerir que, ultrapassada a suspeita das escutas em Belém, Cavaco temerá agora uns mísseis à sua retrete disparados de São Bento, Ricardo Araújo Pereira e os seus companheiros insistem em ridicularizar Cavaco da forma mais eloquente. Porque o mostram com um comportamento paranóico apropriado a expedito internamento em instituição psiquiátrica!
Será, por isso, curioso verificar qual o efeito dos acontecimentos de Setembro nas sondagens regulares sobre a imagem dos políticos. Ele, que sempre liderava com percentagens de mais de 70%, arrisca-se a conhecer violento tombo. E a dar sinal de como se torna problemática a sua reeleição!
P.S. - E ainda andamos iludidos com o facto de estar na moda os palhaços (o fundador do Cirque du Soleil) irem armados em turistas espaciais para a órbita da Terra. Ainda ficam muitos cá em baixo!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Toma lá e embrulha!

De um lado tivemos um Presidente medíocre, que representa o exemplo mais evidente do Princípio de Peter, a querer justificar o injustificável, ou seja, a forma como, a partir de Belém, foi criada uma campanha destinada a prejudicar o Partido Socialista nas recentes eleições legislativas.
Que essa campanha tivesse ou não o conhecimento de Cavaco Silva pouco interessa actualmente: importa sim constatar o quanto ela pareceu claramente concertada com a absurda invocação de uma «asfixia democrática» pela qual o PSD procurava escamotear a falta de ideias a apresentar aos eleitores
Depois surgiu o ministro Pedro Silva Pereira a desmontar, ponto por ponto, todas as inauditas acusações do Presidente. Bem fundamentada essa intervenção foi eloquente quanto a quem esteve na origem deste conflito institucional e quem tudo fez para tratar esta questão com a devida elevação.
O mais grave é que, numa altura em que o país enfrenta graves problemas suscitados pela crise financeira internacional, e importa criar as condições para as superar, só possível com a concertação de todas as sinergias positivas a nível político, seja o inquilino do Palácio de Belém a criar um clima pantanoso, que teria obrigação de ser o primeiro a evitar…
Nesta conjuntura é muito grave que ainda tenhamos de o suportar durante mais dois anos até ter o destino que merece: o esquecimento da História, que deverá reter o grande papel dos seus ilustres antecessores. Mário Soares, porque foi um dos pais fundadores da nossa Democracia. Jorge Sampaio, porque foi da sua acção, que Portugal conseguiu a independência de Timor perante o colosso indonésio.
Depois de tais antecessores, que restará do mandato de Cavaco Silva? Pelos vistos o seu papel de participante activo ou passivo numa continuada estratégia partidária, que os portugueses voltaram agora a condenar.
O que hoje custará engolir aos ridicularizados estrategas laranja é o efeito de ricochete das suas acções: visando um objectivo, acabam por o ver prejudicado pelos efeitos inesperados daquelas.
Foi o que voltou a acontecer com mais esta lastimável intervenção de Cavaco Silva!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

GANHÁMOS, MAS SOUBE-NOS A POUCO!

É claro que, como socialista, fico muito satisfeito com a vitória do Partido Socialista nestas eleições legislativas, mas começa a preocupar-me a facilidade com que Paulo Portas conseguiu encontrar aceitação para o seu discurso populista, feito de uma argumentação desonesta e apelativa para os mais baixos instintos de quem o ouvia. O seu discurso anti-Rendimento Mínimo evoca os piores instintos xenófobos de muitos políticos europeus da pior espécie, como o foram Pim Fortuyn, Jorg Heider ou Le Pen, ou ainda o são Berlusconi ou Geert Wilders.

Não vai ser fácil a Sócrates governar o país nos próximos anos. Mas, quem conseguiu suportar os ataques insidiosos de opositores de todos os quadrantes ao longo destes anos, sendo-lhe assacadas as mais infundadas e tenebrosas acusações, terá a arte de cavalgar a recuperação da crise, que aí vem, e ganhar espaço para o salto de trampolim para nova maioria absoluta. É que o país só terá condições para avançar rumo a um futuro mais auspicioso mediante maioria mais sólida do que a que resulta desta eleição.